CIDADE

Uma tarde no Cruzeiro do Sul

Cajá com sal | 10/10/2016

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crédito: Juliana Diniz

Por Juliana Diniz

É um domingo quente de outubro. Tão quente que nem o por do sol traz alívio para o calor, que insiste nas temperaturas acima dos 30 graus. Com o horário de verão chegando por aí, o dia escurece mais tarde e quem escolheu a opção “Passar Um Dia No Clube” pôde aproveitar por uma hora a mais as instalações do Clube Beneficente Cruzeiro do Sul. A administração do clube liberou: o horário de fechamento que era às 19h, foi estendido para as 20h, mas só durante os próximos quatro meses.

Na roda dos associados, que escolheram o cantinho cativo perto da entrada da sauna, a notícia do novo horário de fechamento agradou. Só que os freqüentadores querem ainda mais tempo para curtir os enxutos 7km2 do clube. “Nove horas da noite é o ideal durante o horário de verão”, é o que acredita a funcionária pública federal Líbia de Oliveira, de 52 anos e que toma sol toda semana no Cruzeiro do Sul desde os 8. As seis outras pessoas que completam a rodinha concordam entusiasmados. É que assim daria para aproveitar melhor a cervejinha, o frango assado, a farofa, o torresmo e a mandioca que eles trazem e dividem em um tradicional piquenique dominical. “Aqui é como se fosse o quintal da minha casa”, revela.

POUCOS, PORÉM RESISTENTES

Incrustado em uma rua sem saída que dá para a Avenida 84, no Centro de Goiânia, a poucas quadras da Praça Cívica, o clube é o recanto dos associados 200 associados. Mas na verdade, desses 200, poucos realmente freqüentam o espaço semanalmente. Segundo a secretária administradora do clube, Joelma de Fátima Ferreira, só 30 deles aproveitam as instalações com regularidade, seja para nadar durante a semana, ou para curtir os dias de folga. “Quando eu comecei aqui, há 19 anos, eram uns 600 associados. Muitos cancelaram, outros passaram pra frente, e tem gente que não freqüenta mas mantém a ação por amor”.

O Erivaldo Livina dos Santos, de 35 anos, já cuidava das piscinas há um ano quando Joelma foi contratada. E ele também lembra dos anos de casa cheia. “Tudo mudou quando prédios e condomínios começaram a ser construídos com área de lazer, piscinas e quadras, acho que na década de 1990”, recorda. Ele veio do Ceará e descobriu o clube por causa do irmão mais velho, que também trabalhou no Cruzeiro do Sul por dez anos. “O salão era conhecido por sua danceteria, podia vender cachaça. Dava confusão e briga, porque era muita gente e o espaço é pequeno”.

crédito: Juliana Diniz

crédito: Juliana Diniz

FARRA RECATADA

Dança, atualmente, no clube, só às quintas feiras, entre as duas da tarde às seis da noite. É o forrózinho dos idosos, que acontecia no Jóquei Clube e foi transferido para o Cruzeiro do Sul depois que o clube da Rua 3, também no Centro, fechou as portas. A entrada é só oito reais, com direito a banda ao vivo e muito gingado. Os dançarinos chegam de taxi, ônibus, carro e precisam seguir regras de conduta bem rígidas: nada de short, chinelo, camiseta cavada ou roupa indecente.

Hoje o salão só abriga festas “de família” como ressalta Odair Silva Barros, de 39 anos, responsável há 3 anos pela manutenção do clube. Ou seja, casamentos, aniversários, festas de sindicatos. As quadras também são alugadas e, inclusive, uma sala comercial construída no clube está disponível para aluguel nessa temporada.

INSUSTENTÁVEL

É do aluguel dessas áreas que vive o clube hoje. “Não são os associados ou convidados que bancam o sustento do clube”, informa Joelma. No entanto, o dinheiro que entra não garante um futuro longo e próspero para o Cruzeiro do Sul. “Assim como muitos clubes da cidade, aqui temos problemas com o IPTU, atrasado há anos”.

Esse problema é antigo e está ligado à fundação do clube, em 8 de março de 1962. As 30 Vanguardeiras, mulheres de visão que desejavam um espaço de lazer para criar os filhos, conseguiram com a Prefeitura de Goiânia a doação do terreno onde foi erguido o Cruzeiro do Sul. De acordo com a secretária administradora, no início o clube era uma entidade beneficente e, por isso, tinha isenção de impostos. A ideia era oferecer creche para os filhos dos funcionários como ação social, mas não há registos atualmente dessa atividade. Agora que o clube é particular, o alto preço do imposto e a baixa arrecadação tornaram-se um impasse para a sobrevivência do clube de 53 anos.

Outro fator complica a quitação da dívida: como a área foi doada pela Prefeitura, ela não pode ser vendidas. “Uma vez teve um movimento a favor da venda do clube. Mas ele não foi para frente porque não pode desafetar a área, já que o clube era beneficente”, explica o advogado João Bosco Pinto de Castro, marido de Líbia.

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crédito: Juliana Diniz

VIGIAS ATENTOS

O Cruzeiro do Sul é para quem foge da badalação, da música alta, das espreguiçadeiras sempre ocupadas e dos lugares cheios. “Aqui é uma paz”, comenta o zelador Odair. Solteiro, ele mora no clube e já admite: “não é qualquer pessoa que entra sem indicação de sócio”.

Os próprios associados reforçam a conduta. “Esse é um clube de família, vem pouca gente. É um clube para 5 ou 6 pessoas”, afirma João Bosco. Assim, os sócios criaram uma espécie de comunidade, na qual só entram novos membros quando são conhecidos. “Quando vem um estranho, a gente repara. Eu sou um vigia constante”, assume a esposa do advogado. Tanto é que casos considerados por eles imorais, como homem entrando no vestiário feminino, pode dar expulsão.

ASSIM COMO AS VANGUARDEIRAS

Durante os mais de 50 anos de história, o clube acompanhou o crescimento e a amizade de crianças que se encontravam a cada final de semana. Brincando nas únicas três piscinas, elas também desenvolveram afeição pelo Cruzeiro do Sul. O João, de 29 anos, tem síndrome de Down. Por isso, os pais dele, José Carlos Caetano Camelo e Lucélia Maria Pelhus, também adotaram o clube como quintal desde quando ele tinha 3 anos. “A tranquilidade chamou a atenção. Hoje, quando o João vê o clube muito cheio, ele acha ruim e vai reclamar na portaria”, revela José Carlos.

Foi dessa forma que os 3 filhos de José Carlos e Lucélia e os 3 herdeiros de Líbia e João Bosco se conheceram, há 20 anos. A cada domingo juntos no clube, a amizade de pais e filhos se fortalece. E o Clube do Cruzeiro do Sul vê realizado hoje o sonho das 30 vanguardeiras. Elas idealizaram um espaço de convivência familiar com área de lazer, e deixaram de legado para Goiânia um quintal escondido em pleno Centro da cidade.

crédito: Juliana Diniz

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