Lançamento

Todo experimentalismo de A Dança da Canção Incerta

Quintal Ilustrado | 11/03/2016

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Por Augusto Diniz

Um maluco por música, shows e festivais. Apaixonado por Goiânia, nascido em Belo Horizonte e vive em estado de êxtase com São Paulo pelas bandas que vê ao vivo. Esperando o próximo show.

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Divulgação

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Em um curral tão cosmopolita, assim traduzido por Diego de Moraes e Kleuber Garcêz, que é Goiânia, a banda Pó de Ser resolveu lançar seu primeiro disco completo, quatro anos depois de disponibilizar o EP Tudo Torto em Linha Reta (2012).

O quinteto é formado por Diego (que já teve carreira solo, fez parte de um Sindicato, da dupla caipira indie Waldi e Redson e também teve seus tempos de Mascate) no vocal, baixo e guitarra, Kleuber nas vozes e violão, Fernando Cipó na guitarra e baixo, Hermes Soares no teclado e flauta, além da percussão de Danilo Rosolem.

A Pó de Ser, antes de qualquer coisa, experimenta na Música Popular Brasileira (MPB) sem medo de ser diferente. Isso já estava evidente em 2012, quando foram lançadas as canções Ypsilone, De Repente, Reduzido a Pó, Acabou e a instrumental Bicho Urbano. E o disco A Dança da Canção Incerta, que a banda lançará na noite desta sexta-feira (11/3) no Teatro Sesc Centro, às 20 horas, só amadureceu a ideia da criatividade trabalhada sem acomodações.

A assinatura das músicas continua a cargo dos compositores Diego de Moraes e Kleuber Garcêz. Apenas a música Pó de Ser tem co-autoria de Fernando Cipó. Há também Leonor, que é uma canção de Itamar Assumpção, inclusive com versos inéditos gravados pela banda.

O disco A Dança da Canção Incerta, gravado entre janeiro e agosto de 2015 no estúdio RockLab Produções Fonográficas, em Pirenópolis (GO), com produção, mixagem e masterização de Gustavo Vazquez. O álbum está disponível para download no site da banda (http://www.bandapodeser.com).

Participações

O álbum conta com participação dos músicos Fernando Catatau, guitarrista da Cidadão Instigado (CE), (guitarra em Pode Apostar e Pó de Ser), dos goianos Leo Pereira, da banda Terrorista da Palavra (recita poema no final de A Dança da Canção Incerta), a cantora Bebel Roriz e a Banda Fênix (Fantasia ao Pé do Ouvido), Cristiane Perné (canta Bicho Urbano e participa de outras músicas do disco), Pedro Vaz (viola caipira em Bicho Urbano) e o baterista Fred Valle.

No encarte do disco, a banda conta como Diego e Kleuber deram início ao projeto, como comentário da canção Vou Não Vou: “Vou Não Vou entra no disco por apego emocional. É que ela inaugura a parceria entre Diego Mascate e Kleuber Garcêz, após se conhecerem num festival em 2006. Levou-se mais de um ano para ela acontecer, pois a agenda de ambos permitia. Daí um dizia: ‘Hoje não dá’. O outro respondia: ‘Se hoje não der, tudo bem, outro dia fazemos’. Daí o tema vira a canção”.

No carnaval deste ano Diego de Moraes e a Pó de Ser voltaram ao palco do Centro Cultural Martim Cererê e mostraram um pouco do que seria o primeiro disco completo da banda.

O material de divulgação do álbum define o grupo da seguinte forma: “Pode ser pop ou rock, vanguarda paulistana ou brega 70’s. Tropicalismo ou Clube da Esquina. Samba ou bolero. Tango ou seresta. Os “malditos” da MPB ou os “queridos” dos Beatles. Tom Zé ou Talking Heads. Concretismo ou parnasianismo. Psicodelismo ou tradicionalismo. Raul Seixas ou Luiz Tatit. Na realidade, o som da Pó de Ser é isso aí mesmo: um montão de coisas e mais um pouco”.

E é mais ou menos isso mesmo. Os 53 minutos do disco divididos em 12 faixas resumem bem essa mistura de cultura popular, cinema, literatura, experimentalismo, músicas de diferentes estilos (do rock ao brega) e mão na massa.

E mais uma vez a ilustração da capa ficou por conta da artista plástica Natália Mastrela, que já tinha assinado a arte do EP da Pó de Ser em 2012.

A Dança da Canção Incerta

Ao botar para tocar do início ao fim o disco, a primeira boa impressão e a introdução de Pode Apostar com um baixo que convida para dançar. Em seguida aparecem os versos “Acorda menino que a vida já grita lá fora/Afine a viola e vá tocar o seu destino”, que caberiam facilmente em qualquer livro de auto-ajuda, mas ganham tonalidade de empurrão divertido com a guitarra de Fernando Catatau. “Se atina cretino! Chegou sua hora é agora/Que a vida devora feito filme de Tarantino.”

Cuidado, como a banda explica, são ideias amarradas com citações de Adoniran Barbosa (Iracema), Itamar Assumpção (Nego Dito), Sílvio Caldas e Orestes Barbosa (Chão de Estrelas) e Geraldo Vandré (Na Terra Como no Céu). Numa variação de estilos, a canção vai da agitação à melodia recital entre a euforia de “Não fuja da raia, caia de cabeça, corpo, coração” ao mais calmo encerramento “Na terra como no céu, no sertão como no mar”.

A canção-título do disco, A Dança da Canção Incerta, é bem a descrição do nome: “O risco é a conta que eu pago por ser vivo”. Com possibilidade de fazer juz ao nome da banda, que pode ou não ser, a letra, bem entoada em uma melodia cativante num misto de pop rock e canção brega, dá o recado ao dizer que “Certo de que a vida é mais bela/Quando a surpresa a espreita”.

A Dança da Canção Incerta, que ganha um coro repetitivo e certeiro no verso “É a vida!”, fica ainda mais bonita e poética com a participação de Leo Pereira, do Terrorista da Palavra, em seu final.

Bicho Urbano, que traz a viola caipira tocada por Pedro Vaz e a voz cravada no blues de Cristiane Perné, faz uma homenagem as faces de Goiânia, com referências a traços culturais, sociais, espaços públicos e hábitos do goianiense.

A mesma cidade que “me dá medo” e aquela que transforma o cantor em “bicho urbano-rural”, que toca “viola no meu rock’n’roll” ao ir da mais popular Avenida Goiás ao local de culto à cultura independente, Centro Cultural Martim Cererê. No fim de tudo, os versos que mais definem esse Bicho Urbano que seria o goianiense, que canta blues e rock ao som da viola caipira, nem está no final da canção: “A cidade arde lixo acidental/Tão cosmopolita… meu curral”.

“Vê se aprende a me prender, desprender e libertar/Pelos labirintos do prazer.” O terceiro e quarto versos de Fantasia ao Pé do Ouvido dão uma ideia do suingue sedutor da música, que conta com a participação da cantora Bebel Roriz e da Banda Fênix. Bebel, inclusive, praticamente sussurra “Vem, me chama pra dentro ardendo em chamas”. Quer mais?

A história da união para compor de Diego de Morais e Kleuber Garcêz deu origem a uma letra que virou, talvez, outra história, a partir do verso “Se hoje não der, outro dia… adia”. A canção Vou Não Vou pode cair no gosto do público da Pó de Ser como uma canção de amor. Vai saber! E é sim uma música com melodia mais calma e cantada com certa emoção. “Bem que eu podia ter ido bem mais além/Foi pro meu bem?”

Ai ai ai!

Refrão dos Diabos é uma levada brega dançante das mais animadas do disco. Sabe aquela camisa florida ou com estampa que você tem vergonha de usar, mas se fosse o Givly Simons, do Figueroas (AL), cantando Melô do Jonas ou Canção para Bangladesh você já estaria na pista há muito tempo se matando de dançar lambada? Pois é.

E a letra de Refrão dos Diabos é de uma dedicação sem fim a ser uma letra para entoar em dor de cotovelo com teor dos mais fuleiros possíveis: “Essa ladainha, essa música brega, essa praga, essa droga, essa obsessão/Essa coisa que gruda no ouvido: o refrão”.

Do brega ao samba com Leonor, versão do Pó de Ser para a música de Itamar Assumpção. E a letra, com trecho até então inéditos, é tão divertida quanto a sua melodia. “Meu cachê é um horror, Leonor, não sobra nem pro cigarro.” A escolha da canção foi justamente essa, como explica a banda, “traduzir de forma bem humorada o drama do cantautor que batalha no cenário da música independente”.

A faixa Prisma presta, de alguma forma — ao menos é o que parece –, uma homenagem à cultura hippie e toda a sua liberdade marcada pela filosofia paz e amor, com citação de artistas do movimento. Mas o fim não é tão bonito e libertador quanto parece: “The dream is over (o sonho acabou)”, como se, de repente, o barato tivesse se tornasse uma bad trip.

Captou é uma das músicas mais interessantes do álbum. Uma canção que tem dois momentos. Um primeiro experimental e inquietante, que muda completamente no meio da música, ao adotar um tom mais animado. “Daqui pra lá, de lá pra cá, daqui pra lá, de lá pra cá, deixei rolar.”

Mudança radical

Com uma melodia um pouco mais pop rock, Venha Ver o Sol é a música mais diferente das outras 11 do disco. Parece uma canção chiclete com letra animadinha. É a hora de levantar as mãos para o alto e acompanhar o ritmo. “O lado B é tão belo quanto o A.” Será?

Pó de Ser é a última e mais longa canção do A Dança da Canção Incerta, com 6 minutos e 30 segundos. A banda define a música como “uma síntese dos sentidos e sentimentos que permearam toda a trajetória até chegarmos aqui”. Fernando Catatau também toca guitarra nessa faixa. “Põe o pé na estrada, a história não tem fim, não/Enfim, tudo pó de ser. Sim! Pó de ser…”

Acesse:

www.bandapodeser.com

www.instagram.com/bandapodeser

www.facebook.com/podeserbanda

 

Máxima Goiás #1 – Lançamento do álbum A Dança da Canção Incerta do Pó de Ser

Data: Sexta-feira (11 de março)

Horário: 20 horas

Local: Teatro Sesc Centro — Rua 15, esquina com a Rua 19, Quadra 34, Setor Central, Goiânia

Ingresso: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5 (meia-entrada)

 

 

 

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