CONTEMPORÂNEO

“Sou trans, dentre outras coisas”

Cajá com sal | 15/11/2015

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Rápida com repostas. Em entrevista à Revista Cajá, a vocalista da Banda Uó Mel Gonçalves reitera a luta pela inserção. Para ela, “o fato de eu ser trans ou você ser gay não deve vir à frente do nosso nome”.

 

DE LUIS GUSTAVO ROCHA

 

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Fotos: Vitor Manon

A VOCALISTA DA BANDA UÓ, CANDY MEL, É SAFA NA resposta quando sente um cheiro de exotificação por trás da pergunta de jornalistas que a abordam para saber da sua transexualidade. “Se for para mostrar o que comem, como vivem… prefiro não falar”, condiciona a cantora, aos 24 anos.

Garota-propaganda da campanha da Avon no “Outubro Rosa” de 2015, Mel aparece em um vídeo da marca dando dicas de make na cor dedicada ao mês para sensibilizar mulheres sobre o câncer de mama e a importância do autoexame. O convite veio tão inesperado quanto o pedido de namoro que recebeu de André durante a gravação do programa Altas Horas, da TV Globo, no começo do ano.

Ela disse sim aos dois, mas no caso da Avon, pediu que desenvolvessem um programa de contratação de LGBT para o quadro de funcionários da empresa e que não dissessem na propaganda que ela é trans. “As pessoas já sabem ou vão descobrir de outras formas”, conta.

À Revista Sexy, topou dar entrevista para a edição de novembro, mas declinou do ensaio fotográfico devido à proposta: a reportagem a respeito de transexualidade exibe, nas primeiras páginas, fotos de homens e mulheres trans, vestidos, sob o título “É menino ou menina?”, para, nas folhas seguintes, mostrá-los nus. “Não quis pela finalidade que o público busca a revista”, referindo-se à masturbação.

Requerer visibilidade para a causa LGBT, a seco, não é a principal questão política abraçada por Mel. “A luta é pela inserção. Eu só quero ter os mesmos direitos. O fato de eu ser trans ou você ser gay não deve vir à frente do nosso nome. Quando usam ‘a trans’ para se referirem a mim, eu pergunto se a pessoa se apresenta como ‘a hétero’ antes do nome próprio.”

“A luta é pela inserção. Eu só quero ter os mesmos direitos.”

A cantora, avisada pelo irmão que será titia, lamenta que o sexo biológico seja o ponto de partida para definir a vida dos bebês. “Muita gente me perguntou o que vai ser. Humano, não? Mas eu nunca me interessei por saber se seria menino ou menina. Prefiro aguardar para ver o que vai virar. O ser humano gosta de podar os instintos das crianças.”

Até hoje em franco processo de construção, a artista goiana faz um exame de consciência do passado recente e põe na conta da mudança para São Paulo, em 2011, a alavanca da maturidade. “Os três primeiros anos aqui me ensinaram muito. Passei fome, me virei para pagar conta… Quase dois anos sem pedir ajuda para minha família, eu tive que descobrir como era ser adulta.”

A família da Mel, a propósito, é evangélica, e, superado o estranhamento de visões de mundo, a cantora celebra a fase entrosada. “Eu tenho os meus poréns com a cristandade. Deixaram de pregar amor e igualdade para defenderem os próprios interesses com armas ideológicas”, diz.

Quando usam ‘a trans’ para se referirem a mim, eu pergunto se a pessoa se apresenta como ‘a hétero’ antes do nome próprio.”

Mas vamos falar de coisa boa? Vamos falar do disco novo, Veneno, com preciosidades como a faixa Dá1like, que fala dos “prostitutos do like”, nas redes sociais, e conta com o canto da foda Karol Conka. Em ensaios diários, Candy Mel e cia. passam longas horas preparando tudo para o show de lançamento no Cine Joia, dia 19 de novembro, na capital paulista.

O primeiro lugar no iTunes (Brasil) é pouco. “A gente queria muito tocar na rádio, assim como tocou em novela, para tocar o povo”, ambiciona a diva, ciente do próprio valor e do valor do pop. “O pop é a imagem junto com a música, e junto com isso vem a sua vida.”

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