CRÔNICA

Qualquer lugar

Quintal Ilustrado | 11/07/2016

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POR JARLEO BARBOSA

Jarleo queria ser jogador de futebol, mas acabou sendo cineasta. Todo ano planeja escrever um livro no ano que vem.

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Andreas Gusky, 1999

Andreas Gusky, 1999

Não estou pronto. Abri por acaso um livro de Clarice e li: Entre um instante e outro, entre o passado e as névoas do futuro, a vaguidão branca do intervalo. Eu não estou pronto. Nem para esse texto que escrevo, nem para o livro que folheio. O emaranhado de semi coisas que fui sendo não encontrou ainda seu estado de teia. Sou desarticulado e severamente abatido pela gravidade do precário. Não estou pronto. Como o anjo que ainda não surgiu da pedra que o escultor lapida. E que talvez não surja. Nem mesmo pronto como uma peça abstrata, resplandecendo em sua rigidez e solidez.

Não estou pronto. Faz um tempo já que ouvi duas garotas conversando no supermercado sobre o cheiro de um shampoo e nunca mais esqueci. Não lembro dos rostos delas, nem das palavras que usavam. Mas trago na memória essa imagem não resolvida: duas garotas, fim de tarde, um mercado qualquer, cheiravam shampoos. Toda vez que penso nisso, me comovo. Porque sou vulnerável, inacabado, suscetível. Enxergo nas pessoas uma capacidade de delicadeza e de cuidado que, apesar do meu esforço diário de atenção, eu não. Não estou pronto e queria também saber de cheiros e me deleitar com o aroma que recende de meus cabelos.

Esses dias viajando entrei numa capela repleta de vitrais. Porque era fim de tarde, o sol atravessava as janelas, pintando um mosaico colorido no chão e nas paredes. Aquele lugar milenar trazia na cor daqueles vidros a história de tantos outros homens que me precederam e que ali estiveram também bestificados. Eu queria aqui, nesse texto, dar conta dessa imagem e do meu pasmo, mas eu sou escasso e não estou pronto. Eu queria que a minha palavra tivesse cor. Mas eu não estou pronto.

Entre um instante e outro, entre o passado e as névoas do futuro, a vaguidão branca do intervalo

Vez ou outra acontece de uma fagulha qualquer se acender e nesse instante o corpo se confunde em sua própria matéria, porque uma coisa dentro pede pra crescer, se estender, se expandir. No tremor da descoberta, nossa natureza interior quer dar posse a um espaço sem nome. Agraciados são os que sabem nominar. Eu não. Eu não estou pronto. Sinto inveja dos que passam por Clarice e, através dela, ocupam um lugar. A mim se passa o contrário, a revelação vem sempre a bordo de uma consciência intuitiva da vastidão de tudo que ainda não tenho, que não sou, que não posso, de tudo que, por fim, me falta. A beleza, ou a delicadeza, ou a verdade em seu sentido puro e profundo, é uma força que me limita.

E é justamente no limite que a consciência do todo se aguça. Eu não estou pronto. Mas quando leio Clarice, ou quando um vitral se atravessa de luz, ou ouço um relato do aroma de um shampoo, eu sei que o mundo não tem fim e que eu sou pequeno, frágil e limitado. Eu não estou pronto. Talvez nunca estarei. Mas há um reconforto nessa paisagem, porque no entendimento do meu próprio limite, reconheço um lugar. E um lugar não é pouco, por mais pouco que eu seja, por menos pronto que esteja. Qualquer lugar é chegar.

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