Alpendre Cultural

Por você eu morro

Alpendre Cultural | 08/08/2017

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Walacy Neto

Colagem: Bobby Baq

Colagem: Bobby Baq

Primeiro vou contar do início da primavera. O passarinho cantava na varanda “I would die for you”. Pensando na morte da bezerra, cantando pela morte da bezerra e agradecendo pois abaixo da sua voz cantante estava a pele podre da bezerra esticada pelo sol.

“I would die for you”, seu vôo pleno como uma pena caindo em direção a carcaça semi-aberta. O passarinho penetrava pela ferida – o sol faz o mesmo na pele da manhã, o homem faz o mesmo  com outro homem apaixonado. Não me pergunte porque te conto isso justo agora apenas escute a resposta. Ela começa nessa história, pois se falo de amor falo também de Fome e penso no sabor das coisas deliciosas: ouvir Bob Dylan, fumar maconha a noite, cruzar fronteiras de Estados, a dança do rabo do gato, a caneta deslizando no suor da mão, o cheiro da mão depois do sexo e o cheiro teu no travesseiro.

Quando alguém diz que morre por mim ou diz que mataria por mim minha boca saliva. Antes da resposta vem a imagem de um pássaro entrando na ferida de um bezerro morto e sumindo na carne velha.  O que vem antes deve ser uma imagem, o exemplo mais vermelho do que sinto e lembro.

Quanto ao tamanho da resposta, digo que caberia na palavra Fome, igual a saudade cabendo na lágrima e depois se acabando na boca seca. Ainda mais forte que a vontade de comer e ainda mais funda que uma memória da infância. Inevitável Fome em ser devorado – saturno devorando um filho, lembra que bonito aquele quadro?

Este é meu sangue, nem sempre aparece depois. Um exemplo: antes da palavra “amor” jorrar do pênis de Deus havia uma tribo de canibais na região das serras do sudeste do atual Estado de Goiás onde o povo batalhava entre si como uma dança, um ritual. O vitorioso ganhava o direito de ser comido, dizem que riam tanto ao arrancar o coração que se mijavam e choravam de alegria.

Fome em ser devorado. Você acha estranho? Dessa dor que ri brotaram o mito dos vampiros e do coração selvagem vieram os lobisomens. Depois do pássaro tudo voa da minha boca. Depois daquela varanda eu nasci pela primeira vez.  Agora são milhões de aves no meu estômago, apagando o tédio e o vazio de existir. O pássaro azul saindo da minha boca vermelinho, sorrindo, cantando “i would die for you”, não é bonito? Mas sobre à maldade que é ceifar a vida plena, sem fazer da carne uma espécie de merenda, ele não canta nada.

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