CONTEMPORÂNEO

Por trás da lona

Cajá com sal | 04/11/2015

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POR Isabela Dias

Num Goiás antigo, das estradas de chão batido e longas distâncias, o circo já alterava destinos por onde passava. Neste nem tão novo século, lonas, artistas e estórias caminham sustentados por trailers modernos

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Carros de boi entoavam uma cantiga de aviso. Enquanto cidades se vestiam de festa, o circo dava cor ao marasmo das cidadezinhas do interior do País. Neste não tão novo século, a atmosfera arrebatadora do circo ainda segue firme, muito bem e obrigado. O contato direto com o público, os ingressos acessíveis e a vida real dos componentes das trupes desbancam qualquer truque de mágica exibido na televisão ou em vídeos do youtube.

Considerada como uma das formas mais tradicionais de espetáculo, a arte circense refaz os passos de gerações de artistas que se desdobram nos bastidores do picadeiro, nas viagens prolongadas e nos globos da morte.

Itinerante por natureza, as raízes são garantidas por meio da base familiar, onde a maioria dos artistas possui laços consanguíneos, como no caso de Suelen Antoniolli.  “Sou da quinta geração, meu pai evitava me ensinar a arte, pois tinha medo que me machucasse, mas quem tem sangue de circo na veia não tem jeito”, explica a artista, que se divide em números de mágica, dança e ainda participa do globo da morte. E ela confirma: “não tenho medo nada.”

O contato direto com o público e a vida dos componentes das trupes desbancam qualquer truque de mágica exibido na televisão ou em vídeos do youtube

É um modo particular a vida no circo. Os artistas vivem em locais improvisados e encontram no nomadismo uma maneira de sobrevivência.  O embate já é quase rotineiro. Para alguns, a possibilidade de conhecer sempre novos lugares é encarada de forma positiva. Para outros, isso se torna uma das principais queixas. “Eu quero parar, é difícil essa vida de circo, quando vai mudar é muito complicado, quando a gente chega não tem água, não tem energia”, murmura Eliardo Vieira, no circo há cinco anos.

Os artistas recebem semanalmente e a maioria não possui carteira assinada. A dificuldade financeira e as inexistentes políticas de incentivo ao circo são outros fatores que atrapalham. Os locais em que se instalam são na maioria das vezes alugados, têm de se pagar pela vistoria de bombeiros, engenheiros, e do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA) para liberação dos espetáculos.

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“Depois da maquiagem, você se transforma em outra pessoa”, explica entusiasmado Erick Rian, palhaço no circo Panamericano. Um misto de tristeza e preocupação sai de cena quando o espetáculo começa. Segundo o palhaço, nada atrapalha o intuito de fazer rir. Ele aprendeu e construiu seu personagem observando o pai e os outros palhaços mais velhos. Cada espetáculo é único.

Social circense

Em Goiânia a arte circense é difundida apenas pelos circos itinerantes, mas também por escolas de circo que possuem caráter social e acolhedor. A Escola de Circo Laheto funciona desde 1994, é coordenada por Valdemir de Souza, o palhaço Maneco Manacá, juntamente com a sua companheira Seluta Rodrigues, coordenadora pedagógica.

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A partir de 1996, o Grupo focalizou seus interesses em estudos, pesquisas e trabalhos nas políticas de atendimento às crianças e adolescentes advindas de famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica. “A linguagem circense é mais forte que o teatro”, explica Seluta, que acredita na escola de circo com imenso potencial pedagógico.

Um misto de tristeza e preocupação sai de cena quando o espetáculo começa. Segundo o palhaço, nada atrapalha o intuito de fazer rir.

No Laheto, esse trabalho social é desenvolvido com crianças e adolescentes de escolas públicas. Além das oficinas gratuitas de arte circense, a escola também oferece letramento e matemática, café da manhã, almoço e lanche. Os alunos também desenvolvem uma oficina de rádio, em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG), onde produzem e editam o material que é transmitido no próprio som interno da escola.

Acompanhe o ensaio do fotógrafo João Sergio no Circo Panamericano:

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Esta reportagem foi publicada em novembro de 2013 quando a Revista Cajá ainda era de papel e projeto de conclusão de curso de graduação. Todos os personagens desta matéria ainda se desdobram em truques de mágica, maquiagens coloridas e no globo da morte.

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