CRÔNICA

Plano Geral

Quintal Ilustrado | 27/09/2016

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POR JARLEO BARBOSA

Jarleo queria ser jogador de futebol, mas acabou sendo cineasta. Todo ano planeja escrever um livro no ano que vem.

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Cena do filme Paris, Texas, de Wim Wenders

Cena do filme Paris, Texas, de Wim Wenders

Um paisagem. Um dia solar. Uma paragem estranha, outra, estrangeira talvez. Nessa estrada que a corta, um carro atravessa. Poderia ser eu a guiá-lo. E se fosse, seria feliz ali? Eu que sou tão nublado, teria essa capacidade de sol?

Essa paisagem não é absolutamente nova, mas é com certeza outra, do jeito que eu digo gostar, isso de quase nem pertencer. E eu estaria ali, cruzando essa imagem como num grande plano geral de um road movie. Eu ali buscando a minha Paris, que é sempre mais Texas que Fontainebleau. E me pergunto sinceramente se eu seria capaz dessa paisagem.

Nesse carro, uma mulher dorme ao meu lado recostada ao vidro. Faz sol e essa mulher que amo dorme inconsciente da paisagem. Eu conseguiria de fato amar essa mulher nesse dia de sol? Encosto meu dedo no seu rosto, resvalo por seu nariz, intuo no seu arfar a respiração do meu filho que ainda não existe, mas que, no futuro, também dormirá incólume a essa cena; uma miragem. A vida podia ser isso e só; o sol, a estrada, a mulher e esse filho inscrito entre eu e ela. Mas me pergunto: eu consigo essa imagem?

Eu que sou tão nublado, teria essa capacidade de sol?

Esse homem que poderia ser eu divisa o horizonte e está calmo. O homem que posso ser teria essa retidão? O carro rompe a estrada e o homem que está calmo, vendo sua própria mão no volante, toma consciência do seu gesto e sente toda sua história se condensar no círculo que conduz. Ele está vivo o homem e suas mãos já não tremem, porque ele acaba de se dar conta de que não há onde chegar. A imagem de sua própria mão reconfortou o homem calmo tomado por uma súbita angústia. O homem calmo está aliviado. Ainda há sol. O carro segue.

Não há mais ninguém nessa estrada, um caminho de sol, uma rota íntima. A despeito do tanto trilhado, da paisagem agreste vencida, esse homem dirige rumo ao sol que já encosta no horizonte, inalcançável, mas ali. A mulher, já desperta, comunga com ele um silêncio novo que eles nem sabiam existir. Apenas o murmurar do carro amparando tudo que não podia ser dito, a luz extrema do dia recortando a pele, a estrada rolando sobre si mesma como uma esteira. A vida era isso e só; essa disposição de caminho, esse lusco-fusco, a comunhão entre duas pessoas grávidas da paisagem que queriam pra si. E aquele homem, que possivelmente sou eu, já se sente apto a essa imagem e por isso mesmo liga os faróis, agora ciente que o sol voltará, sem pressa, nem pesar. Voltará.

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