CAJÁ2ANOS

Os órfãos do Setor Sul

Cajá com sal | 12/12/2017

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O sumiço dos órfãos do Setor Sul

Por Luisa Guimarães 

Estava sentado no meio-fio a alguns metros do casarão em que morava desde que era bebê. Já passava das 17h30, aquele momento que divide a tarde do fim dela e que anuncia a chegada da noite. Isso se não for horário de verão, quando o relógio pode até dizer que é noite, mas o sol revela o contrário.

O casarão ficava no fim de uma daquelas charmosas vielas do Setor Sul, de frente a uma pracinha onde brincou tanto com seus irmãos. Nunca ficou sabendo de onde veio e nem por que foi deixado ali – só sabia isso, foi deixado na porta ainda bebê, como num roteiro manjado de menino órfão abandonado à própria sorte. Das dezenas de irmãos que tinha, era mais próximo de três. Manoela e Lara eram gêmeas, daquelas idênticas que só se sabe diferenciar uma da outra pela personalidade. Quem não era próximo caía facilmente nas peças que pregavam desde a época em que moravam em Anápolis, antes do incêndio que destruiu a casa e levou seus pais e irmãos. Pedro era o mais novo, mas era também morador antigo do casarão. A mãe morreu no parto e o pai o deixou logo que saíram da maternidade.

Estava sentado sozinho no meio-fio, na viela que contava com poucas casas e muitas árvores. De todos os becos, praças e bosques do Setor Sul, a rua em que morava ainda era o seu lugar favorito. Conhecia cada segredo da Viela 32. As melhores lembranças dos seus 12 anos de vida vieram dali – e agora era também o cenário do seu pesadelo.

Como podia caber tanta angústia em um peito tão jovem? Repassava os últimos cinco dias em sua cabeça repetidamente, buscando por algum detalhe que o ajudasse a entender o que estava acontecendo. Mas dessa vez em voz baixa, apenas para si mesmo. Não podia dividir com mais ninguém.

Por ser uma rua sem saída, nunca havia um fluxo grande de pessoas passando por ali. O Setor Sul tem uma aura de cidade de interior, em que conhecer a rotina de cada vizinho não chega a ser uma invasão de privacidade. Todos os dias pela manhã e ao entardecer dona Dália subia a viela do casarão arrastando os chinelos trançados que faziam um barulho característico quando encontravam as folhas secas do chão.

Se encolheu ao vê-la chegar.

Muito se especulava sobre a vida de dona Dália, mas pouco se sabia com exatidão. De viúva amargurada a mestra de feitiçaria, histórias sobre ela era o que não faltava para alimentar o boca a boca dos moradores. Ela, no entanto, era de pouquíssimas palavras, balbuciava não mais que o necessário para as compras na farmácia. Não era de dar bom dia.

Conhecia bem a rotineira passagem dela por ali: subiria lentamente até a pracinha em frente ao casarão, sentaria no tronco de árvore caído perto da roseira e ficaria por alguns momentos contemplando sabe-se lá o que. O casarão chamava atenção por ser imenso, mas não havia nada demais em sua arquitetura para atrair tamanha admiração. Estava precisando de uma boa mão de tinta na fachada e de trocar o portão que pendia frouxo. Uma ajeitada no jardim da entrada também cairia bem.

Mas dona Dália sentou-se à sua frente, no meio-fio do outro lado da rua. Parecia não olhar exatamente para nada, como quando ficamos tão absortos em nossos pensamentos que as coisas saem de foco. Deu boa tarde, ela não respondeu. Permaneceram em silêncio por alguns minutos, observando a sombra das folhas das árvores que balançavam com o vento suave.

– Você está preocupado – ela disse quase que em sussurros.

– Ninguém acredita em mim – o garoto respondeu.

– Eu acredito.

Não conseguia nem organizar seus pensamentos antes de vomitar as palavras tamanha era a euforia de poder dividir tudo o que estava acontecendo nos últimos dias, deixando-o num estado de agonia que chegava a se tornar dor física – na cabeça, no peito, no estômago. Alguém acreditava nele, não estava louco. Como aquelas pessoas puderam fazê-lo duvidar de si mesmo? Não era maldade suficiente que seus irmãos tivessem desaparecido?

Suas buscas pelas praças, ruas e curvas pareciam dar sempre no mesmo lugar, ou em lugar nenhum. Hoje tentou chegar no Bosque dos Pássaros e não conseguiu encontrar o caminho que fazia sozinho desde os sete anos de idade (que o pessoal do orfanato não fique sabendo desse detalhe). A última vez que vira o irmão foi descendo a Viela 32 e fazendo a curva para a esquerda, em direção ao Bacião.

– Dizem que as vielas e bosques daqui pregam peças. Trocam de lugar vez ou outra.

Oras, ela achava mesmo que cairia nessa? Apesar de ser uma criança, já não acreditava em histórias de fantasia. O que estava fazendo ali, confiando suas angústias mais profundas a alguém que não o levava a sério? Recompôs-se de seu momento vulnerável. Não iria falar mais nada. É o que havia decidido desde que foi pedir ajuda nas buscas por seus irmãos e teve que ouvir que nunca houve Pedro algum ali. Ou Manoela e Lara, as gêmeas idênticas e inseparáveis que desapareceram repentinamente enquanto procuravam pelo primeiro irmão perdido.

As gêmeas chegaram a sentir a humilhação da dúvida ao falarem com a professora de música, a tia Nena, de quem tanto gostavam. “Não conheço nenhum Pedro, meninas”, ela disse com sua voz doce. “Tem certeza de que ele morou aqui?”.

Quando Pedro sumiu, foi como se sua existência tivesse sido apagada. Não estava mais nas fotos, ninguém se recordava dele. Nada. Logo aquelas pessoas que conheciam de perto o que é abandono, solidão, descartaram a vida do garoto com uma facilidade de embrulhar o estômago. Junto às irmãs, faziam e refaziam os caminhos confusos do bairro que mais parecia labirinto na esperança de que o menino estivesse escondido em um beco tão secreto que ainda nem havia sido descoberto.

Até que viu Manoela e Lara desaparecerem deste mundo. Se separaram para agilizar as buscas e seus caminhos não se cruzaram mais. A beliche que dividiam no quarto ao lado não possuía nem lençóis, a escrivaninha já não tinha as pilhas de desenhos feitos com lápis de cor.

Estava só.

O céu tinha tons de alaranjado e cor de rosa, as folhas não faziam mais sombra no chão. Dona Dália levantou-se lentamente, olhando ao longe e desceu a viela arrastando os chinelos, sem pressa. Ele seguiu seus exatos movimentos, caminhando com a distância de dez, doze passos, observando-a sumir na curva. Olhou para trás e o casarão já não estava mais lá.

***

Este conto faz parte da comemoração especial de dois anos da Revista Cajá. Ao longo das próximas semanas, novos contos do mesmo universo temático serão publicados na revista. Leia agora O Crime do Cinemão, de Déborah Dias. As ilustrações foram elaboradas e criadas pelo arquiteto e urbanista Rodolpho Furtado, do projeto @Pigmentos.

Luisa Guimarães é jornalista. Pesquisa memória, imprensa e resistência.

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