CAJÁA2ANOS

O viúvo do Edifício Bemosa

Cajá com sal | 19/12/2017

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O viúvo do 311

Por Jarleo Barbosa

Fazia um ano hoje. Lourival acordou e mais uma vez repetiu a liturgia que vinha cumprindo desde que ela se foi. Um café preto pra dois, um copo amargo, outro três gotas de adoçante, dois pães ao forno com manteiga sem sal e os miolos no canto para ir beliscando entre uma mordida e outra.

Os panos de prato devidamente alinhados amparavam os pratos e a xícara sobre a mesa. Só recentemente Lourival descobriu que o pessoal vem chamando isso de descanso de mesa e que até vendem como conjuntos. Ele tentou experimentar e comprou numa loja do Centro um conjunto com quatro. Após uma certa demora na escolha, optou por levar o conjunto com temas animais. Segundo a vendedora esses eram 3D e o olho do tigre acompanhava o movimento da pessoa. Lourival se encantou com a possibilidade de comer olhando pra uma floresta que se move. Comprou, mas tão logo abandonou os descansos e voltou aos velhos panos de prato. Logo no primeiro dia, o movimento dos olhos do felino atacou a enxaqueca de Lourival, que não soube mediar o café e a selva do 3D.

Já munido novamente dos panos de prato, colocou, como sempre, um prato na frente do outro, os pães no centro e comeu sozinho o que se destinava pra dois. Hoje com 80 anos, aprendeu a cozinhar aos 75, após um acidente que condenar sua mulher à uma rotina horizontal. Lourival decidiu aprender a cozinhar e se tornou responsável por alimentar a mulher, além de todos os outros cuidados, que na sua imobilidade, a mulher requeria.

Agora, já um ano sem ela, agarrou-se ao que tinha: a rotina. Após uma vida vivida juntos, o que resta de uma casal é a cerimônia dos pequenos hábitos, a naturalização da rotina e, quem sabe, com alguma sorte, um encantamento pela repetição. Nos últimos anos de vida de sua mulher, o casamento se tornou para Lourival um sacerdócio. E, apesar do desgaste e da sublimação de si próprio em prol dela, ele ia dormir todas as noites, repleto de sentido, e se sentia, como há muito não, vivo.

A doença da mulher encheu Lourival de vida. Ele se sentia útil, capaz, potente. Precisou até, não apenas uma vez, frear o espírito para entrar na sala onde ficava a esposa. Mandava o bom senso que ele a tratasse num misto de luto e esperança, mas alegria não. Mesmo assim, entre uma colherada e outra durante o jantar, a mulher podia intuir no olhar do marido uma nesga de euforia. E não foi apenas uma vez que sentiu ânsia de vômito, enquanto o marido lhe alimentava. Com o tempo foi deixando de comer, pois sentia no tempero de Lourival, e na abnegação dele, um rastro de culpa. Como se sua debilidade fosse o cenário perfeito para o marido expiar o remorso de ter vivido inconsciente de sua presença. Uma presença que durante 60 anos se avizinhou, mas que nunca, profundamente, penetrou. Depois de um ano ela morreu esquálida.

Como todos os dias, Lourival tomou seu café olhando pela ampla janela da sala, onde aos poucos via a cidade acordar. Lentamente o som descompassado da manhã ia invadindo sua casa, como uma fumaça entre as frestas. E o vapor do café quente subia e embaçava seu óculos, confundindo-se na sua visão com a fumaça que do lado de fora saída do ônibus e ia ganhar o céu. Lourival abriu um pouco a janela e viu que na calçada do seu prédio os primeiros ambulantes já se avolumavam. Sabia o nome de cada um deles, mas confundia suas feições e gastou alguns minutos tentando conectar rostos e pessoas.

E no meio desse entrecruzamento, apareceu o rosto desvanecido de sua mulher. Percebeu pela primeira vez, embora lembrasse com certa acuidade as feições dela, que já não podia dizer o mesmo da voz. Fechou os olhos e fez força catalogando mentalmente os sons que já escutados. Colocou a voz de outra mulher na boca de sua e se censurou. Umas das imagens mais claras que tinha de sua mulher, era dela sorrindo num dia de sol no Bosque dos Buritis, mas só agora reparou que já havia tempo que lembrava dessa imagem sem som. Um sorriso seco, mudo.

Na missa de sétimo dia da mulher, os netos presentearam os convidados com um DVD com cenas da avó. Lourival gastou o resto da manhã buscando por isso e quanto encontrou se lembrou que não tinha DVD, que nunca havia tido. E como numa cascata se lembrou que as fitas VHS da família ficavam com o filho em Ribeirão Preto, e se lembrou que quando encontrou a mulher morta na cama numa manhã de janeiro, ela parecia sorrir. Fechou os olhos dela e tentou com as mãos tirar do rosto dela o sorriso, mas a constrição do corpo morto o impediu. Ao tampar seu rosto com um lençol, sentado do lado inerte da mulher,  divisou a mesma janela que hoje divisa e pensou: se me jogo dali, eu morro e acabou.

Lourival já havia enterrado os pais, os irmãos, os melhores amigos e a mulher. Desde a morte dela, esse era seu maior hiato sem ir a um enterro. Lembrou que no sepultamento dela, no momento mais dramático, onde o filho fazia um discurso emocionado, começou a chover e ele vagueou o pensamento, lembrando da janela da sala que deixara aberta. De fato, voltou para a casa viúvo e a sala toda estava inundada.

Sua vida de viúvo não alterou sua rotina. Ou havia ele incorporado, ainda durante a vida de sua mulher, um cotidiano de solitário, ou agora na ausência de sua mulher, não havia ainda assimilado a sua falta. O fato é que fora os dias que procederam a morte, onde a burocracia mortuária se impõe, o ritual do seu cotidiano não se alterou. Continua cozinhando pra dois, não saindo de casa por mais que 15 minutos, ligando a TV nos programas que ela gostava, abrindo a janela do quarto quando o sol ultrapassa o prédio da frente. Entretanto, não poderia dizer que sente saudade, ou sequer nostalgia. Lourival olha pra vida, como olha pra cidade amanhecendo. E pelos 80 anos de olhar, sabe que a luz da aurora é absolutamente idêntica à luz crepuscular.

Enquanto seu pensamento deambulava, a luz do sol cintilava, pintando sua sala de dourado. Lourival se virou de costas e viu que a luz pintara um quadro na sala onde um dia foi o quarto da mulher. Ele ainda era capaz de pasmo e foi acertado por um ao ver o desenho da poeira dançando no raio de sol que cruzava a sala. Teve a perfeita noção que naquele facho de sol habitava sua mulher e que naquele calor, havia o peso de seu corpo. Sentiu que a parede, o rejunte da cerâmica, o teto, tudo estava encardido do vapor que outrora ele e ela destilaram pela casa. E que ele e ela habitavam aquela arquitetura. Eram os dois que davam morada para as paredes. Teve a percepção exata que o som do riso que ele esquecera, estava misturado ao som do Eixo Anhanguera que freava a duas quadras dali. Sentiu-se integrado e ao mesmo tempo gregário, fazendo parte de tudo, ao mesmo tempo que se sentia uma extensão do que quer que fosse, sobretudo do tempo.

Terminou de abrir a janela e a massa sonora da cidade invadiu a sala, como uma gargalhada. Lourival teve uma consciência súbita de vida e fechou os olhos. Viu a imagem de sua mulher sorrindo no bosque e conseguiu ouvir o som dessa imagem. Deixou a xícara com o café já frio sobre uma estante e subiu no parapeito da janela. Antes de pular, pensou: se me jogo daqui, eu morro e acabou.

***

Este conto faz parte da comemoração especial de dois anos da Revista Cajá. Ao longo das próximas semanas, novos contos do mesmo universo temático serão publicados na revista. Leia agora Os Órfãos do Setor Sul, de Luisa Guimarães. As ilustrações foram elaboradas e criadas pelo arquiteto e urbanista Rodolpho Furtado, do projeto @Pigmentos.

Jarleo Barbosa é diretor e roteirista de cinema e televisão. Dirigiu o programa “Arquitetura Verde”, exibido no canal +Globosat. Atualmente está finalizando seu primeiro longa-metragem, Hotel Mundial.  

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