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O fantasma da Antiga Estação Ferroviária

Cajá com sal | 24/01/2018

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O Fantasma da Estação Ferroviária

Por Orion Love

I

Julho mal começara e o Fantasma da Estação Ferroviária já estava exausto. O trabalho era excitante, mas a impossibilidade de auxílio anulava a existência de qualquer período de descanso significativo. Isso não duraria muito, ele sabia. Os visitantes estavam cada vez mais ousados e as medidas enérgicas exigidas pelas circunstâncias talvez resultassem – alguns dias antes do planejado – em cadáveres frescos ou mais membros decepados, pelo menos.

II

A escolha da locação para a produção do filme foi o fator decisivo. A Estação Ferroviária, há muito abandonada e esvaziada de valor para a cidade, aguardava. O prédio agora era um ídolo obsoleto erigido em meio a uma ilha de concreto. Apenas algumas árvores testemunhavam a vagarosa decadência das paredes onde um dia o futuro fora inscrito em forma de Art Déco.

Alcançar a câmara principal do lugar foi tarefa fácil, uma vez lá, os equipamentos para a filmagem foram instalados. O Fantasma, um artista que jamais cederia aos excessos da pós-produção, cuidou de cada detalhe de modo que precisasse retocar o mínimo.

A tomada era externa; os efeitos, internos. Um clique e luzes oscilantes de simulada eletrocussão piscavam dentro do lugar. Outro clique e urros animalescos saltavam dos alto-falantes sacudindo a madrugada. Essa seria a cena final, um zoom reverso, uma vítima aterrorizada abandonada pelos espectadores, um sistema nervoso em rebelião saciando uma fera faminta que agora, durante seu ataque último, revelava sua vitória sobre a morte. Um fim desolador, expectativas quebradas e possibilidade de sequência. A obra seria um sucesso.

III

Nenhuma vida nas imediações, nenhum carro ou som. As luzes de prédios repousavam no escuro doméstico, centenas de metros distantes. Ainda assim a gravação deveria ser rápida e única, pois ouvidos curiosos certamente buscariam ajuda policial. Não houve licença nem pedido, nenhum papel envolvido ofuscaria a legitimidade do filme.

IV

O corpo seria ignorado pelo Fantasma, não fossem os acontecimentos do dia seguinte. Um morador de rua, habitante de qualquer vão dentro do prédio, certamente se incomodara com a algazarra infernal. A solução estaria obviamente em meio aos fios, que deveriam ser desplugados, mas lá repousava também a morte daquele que anos atrás deixara de ter um nome.

Foi assim que o Fantasma o encontrou, um dos dedos ainda fumegando, fétido. Ao lado, um fio desencapado brindava ao coração recém parado. Morte por eletricidade, limpa e eficaz. Era hora de sair apressadamente. O corpo não seria lembrado pelo Fantasma, um acidente banal que seria infeliz apenas se gerasse algum tipo de transtorno. Uma saída rápida evitaria qualquer possibilidade de associação com a morte, o filme era para o futuro. A lembrança do homem já nem existia. Recolher equipamentos e ir embora.

Agora.

V

A manhã ainda se insinuava pelas ruas quando o vídeo começou a circular pela internet. A janela de algum prédio nas imediações emoldurava um frenesi de luzes e sons aterradores. Poucas visualizações até a hora do almoço, foi pouco antes desse momento que algum jornalista em alguma rede social associou a notícia da morte de um indigente ao vídeo publicado por um amigo. “Mesmo local, mesma data. Evidente.” Na noite daquele mesmo dia o incidente era o assunto mais comentado do País.

VI

Não nos interessa aqui traçar um perfil psicológico do Fantasma, menos ainda nos interessa julgá-lo. Para nós, contar a história importa mais do que entendê-la. Por isso vamos aos fatos.

Surgiu de algum canto obscuro a ideia do documentário, uma obra de arte das mídias digitais que inauguraria uma nova escola artística. O registro de vidas sendo perdidas e uma lenda urbana sendo pavimentada com o sangue humano, inclusive o de seu criador. Por isso as pequenas “peças” foram sendo pregadas. Um carro estacionado em frente ao local, incendiado. O relato de uma ciclista perseguida durante a madrugada, também em frente ao local, “um homem mascarado, segurava uma faca. Acertou minha perna.” Dois trabalhadores ouviram ruídos estranhos vindos da estação, gravaram vídeos, mas não ousaram aproximação.

O Fantasma queria público e estava conseguindo.

VII

O planejamento das próximas etapas foi rápido. Decidido o fim, o meio se tornou um simples e saboroso aborrecimento. As visitações ao local começaram, conforme o Fantasma esperava, durariam pouco, ele sabia. Esse era o motivo da pressa. Um quarto alugado em frente à Estação Ferroviária, alguns equipamentos em caixas e quatro câmeras. Duas discretamente posicionadas sobre árvores diante da entrada do local, uma em sua nova janela e outra, essa portátil. Todas elas preparadas para capturar o florescimento de um passatempo juvenil, que custaria a vida de alguns dos envolvidos.

A peregrinação de adolescentes era massiva demais no primeiro dia das férias escolares e ideal no quinto e, apesar da diminuição diária do fluxo, uma coisa era constante: os perfis dos visitantes. Os mais frequentes apareciam em grupos, dos quais se distanciavam rumo à entrada do lugar e lá aguardavam alguns segundos – alguns contavam até dez, em voz alta, depois corriam de volta se vangloriando para os amigos que aguardavam de longe. Ao segundo grupo pertenciam os indivíduos que batiam na porta da Estação, chamavam algum nome e saiam deixando uma maçã – havia dúzias delas no lugar. Estes provavelmente cumpriam algum desafio/ ritual criado por alguém na internet. O terceiro tipo de visitante geralmente se sentava e bebia, ou fumava algo. Como se à vontade com o mais obscuro da situação.

Uma coisa tinham em comum, todos tiravam fotos.

VIII

 A ideia do tranquilizante não foi a mais original e nem a de mais fácil execução. Afinal, conseguir e disparar apropriadamente dardos tranquilizantes para animais de grande porte não era algo simples. Porém algum treino e os contatos certos resolveram essa etapa.

A execução ocorreu quando o dia amanhecia, o jovem se aproximou sozinho, pertencia ao grupo que trazia as maçãs. Ninguém por perto, só o chacoalho ocasional de uma sirene ao longe, a polícia estava de sobreaviso em relação ao lugar, mas ninguém julgou necessário o esforço de uma viatura exclusiva ali, estacionada. Um erro.

O disparo de dentro do carro parado atingiu as costas do garoto, a queda imediata indicava o sucesso da empreitada. Sob o cobertor que o protegia de câmeras intrusas o Fantasma era a destreza encarnada. Todo o processo durou menos de dez minutos.

IX

Os policiais encontraram um garoto ainda desacordado, algemado a uma grade de metal, deitado, como se dormisse tranquilo, exceto por um detalhe. De seu braço esquerdo não mais pendia uma mão. Uma poça de sangue se formava ao redor; grande o suficiente para alarmar as testemunhas e pequena o bastante para que entendessem que a mutilação ocorrera há pouco tempo.

A mão decepada descansava na porta da estação, atada a uma guirlanda de capim seco.

O garoto sobreviveu e a notícia se espalhou ainda mais.

Poucas horas dali e já seria a grande noite.

V

Vocês certamente assistiram ao filme, talvez não se lembrem da data em que foi lançado, mas se lembram do processo.

Vocês ouviram histórias sobre a infância do Fantasma e viram fotos que ele nunca planejou divulgar.

As teorias sobre a aquisição do fuzil se mostraram corretas e as pessoas associadas foram presas, disso vocês sabem.

Vocês viram o rosto das vítimas estampado em jornais por todo lugar, alguns de vocês estiveram presentes em reuniões póstumas e prestaram homenagens. Outros só vieram aqui guiados pela curiosidade mórbida, até mesmo aqueles que dizem estudar o caso – sádicos, poderíamos dizer.

Poderíamos dizer que todos somos culpados, que alimentamos um monstro, que exigimos sacrifícios humanos em nossos noticiários. Poderíamos clamar por heróis e soluções milagrosas, culpar os tempos modernos, a tecnologia que permite a instantaneidade de crimes como esse.

Dezoito pessoas mortas em uma transmissão ao vivo e um suicídio em sequência. Um arquivo hospedado em algum lugar da nuvem carrega imagens muito bem elaboradas, tudo planejado. Um filme. Uma obra de arte pecaminosa. O nome de seu autor em todos os lugares.

Por ora o Fantasma apenas assombra e inspira.

Mas e as pessoas, será que elas o temem? Ou será que elas o amam?

***

Este conto faz parte da comemoração especial de dois anos da Revista Cajá. Ao longo das próximas semanas, novos contos do mesmo universo temático serão publicados na revista. Leia agora Cem Anos de Sequidão na Campininha das Flores, de Walacy Neto. As ilustrações foram elaboradas e criadas pelo arquiteto e urbanista Rodolpho Furtado, do projeto @Pigmentos.

Orion Love não é constelação. Trabalha como professor, estuda Linguística, faz música, reside em Goiânia. Canta, bebe e chora.

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