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O demônio da Anhanguera

Cajá com sal | 29/11/2017

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Imagem criada pelo arquiteto e urbanista Rodolpho Furtado

Por Maria Clara Dunck

Quem quer que entrasse em algum dos ônibus biarticulados que até hoje seguem implacáveis pelo Eixo Anhanguera, como se lá um dia tivesse sido rio caldoso mitigando a sequidão do Cerrado, reconheceria aquela mulher. Alguma coisa em mim certamente a perturbava. Seu olhar sempre se demorava em minha direção, como se a adolescente que fui estivesse visivelmente à espera da salvação.

– Já conhece a palavra de Deus, menina? – ela dizia sempre ao me encontrar. E o trajeto até a escola se alongava ainda mais.

Para distrair-me do sermão, observava os diferentes arranjos de mãos empoleiradas nos canos, o entrecruzar abrupto de braços e pernas a cada brecada do ônibus; às vezes ensaiava em qual dos buracos de minhas roupas seria o melhor para preservar os trocados. Na volta para a casa, através da janela eu contemplava o espetáculo do cotidiano se encerrar com o abaixar das portas das lojas e o nascer da penumbra. O barulho que começava a se dissipar indicava que os humores estavam a postos para receber a noite.

Porém, naquele dia quente de outubro, o último que se tem registro em Goiânia, o Centro da cidade era de uma quietude absoluta. O calor modorrento poderia muito bem ter espantado todo mundo pra suas casas mais cedo. Os pedestres já não disputavam mais nenhum centímetro das calçadas. Sobravam vagas para os carros, coisa rara por ali. Ao me pegar absorta na estranheza do cenário, tomei consciência da minha completa solidão.

Onde teriam ido parar todas aquelas pessoas que ainda há pouco me faziam companhia?

Desconfiada, levantei da poltrona apertando os olhos na direção do motorista, mas não havia ninguém conduzindo o ônibus. Tratei de me localizar: de um lado estava a Avenida Anhanguera; do outro, a plataforma do Eixão. Vazia em pleno horário de pico.

Cochilei e perdi a noção do tempo, foi a primeira coisa que pensei. Afinal, quase nunca conseguia assento. Devo ter relaxado demais. O céu estava mais escuro do que costuma estar quando passava naquele ponto. Poderia ter me distraído. Mas não me sentia com sono, e o relógio marcava meu horário habitual.

Comecei a sentir frio. As portas do ônibus estavam abertas. Parecia que todo mundo já tinha tomado seu rumo, menos eu. Quando saí do ônibus, senti que a escuridão mordia meu calcanhar quanto mais me afastava da plataforma e me dirigia ao outro lado da avenida. Acelerei o passo e percebi que as portas das lojas se fechavam em efeito dominó, como se eu fosse uma visita indesejada. Mas não conseguia vislumbrar nenhum vulto sequer pelas frestas. Já não havia transeuntes, automóveis ou comerciantes para onde quer que olhasse.

No meio da calçada, prostrei-me e esfreguei os olhos, buscando uma resposta óbvia para aquela situação que parecia sem sentido. Uma explicação que, pelo cansaço ou algum outro motivo, eu não conseguia me lembrar. Mas nada me veio além da desolação. Quando pensei em contatar alguém para, quem sabe, me explicar aquela loucura, me dei conta de que, no susto, havia esquecido minha mochila dentro do ônibus. Esfreguei o rosto novamente. O pânico me abateu.

Voltei correndo em direção ao ônibus, ainda parado na plataforma, do mesmo jeito que estava antes de eu desembarcar. Mas havia algo diferente: o veículo estava com o motor ligado, as portam haviam se fechado e alguém parecia estar sentado no banco do motorista. Com a plataforma vazia, pulei a catraca sem receio de uma advertência. Titubeei alguns segundos antes de bater à porta do ônibus. Até que bati:

– Por favor, pode abrir aqui? – minha voz quase não saiu, e as pernas tremiam.

Quando as portas se abriram, avistei na condução a senhora. A senhora da pregação.

Diante daquilo, eu não conseguia pensar em nada. Dizer nada. Então saí em busca da minha mochila no final do corredor.

– O ônibus já vai partir – ela disse com a voz tranquila, de um jeito que eu nunca havia ouvido.

– Espere! Vou descer! Só vim buscar a mochila que esqueci.

Mas o ônibus começou a se mover antes mesmo que eu terminasse de falar.

Com a partida, desabei sobre o assento. Agarrei a mochila e a apertei contra o peito. Respirava fundo enquanto contemplava o centro da cidade totalmente diferente do que costumava ver todos os dias. Vazio e silencioso. O medo de perambular pelas ruas da cidade à noite sempre determinou meu limitado itinerário. Mas aquela situação me fez experimentar uma nova sensação de permissividade. Por alguns minutos, o medo se esvaiu. E me deixei levar num passeio noturno, como imaginava ser nos tempos de outrora. Já não sentia medo. Parecia que nada mais poderia me assustar.

Minha calmaria e satisfação foram interrompidas pelo barulho de vozes. O ônibus pouco a pouco diminuiu a velocidade. Já não conseguíamos avançar. Então paramos.

– Chegamos ao destino final. Pode descer – disse a senhora com gentileza.

Quando as portas se abriram avistei uma multidão convulsionada. Algumas pessoas gritavam, outras, consternadas, carregavam velas ou se davam as mãos. Havia grupos de caras-pintadas que empunhavam cartazes com escritos que eu não conseguia decifrar na bagunça. Avancei sobre a multidão, cortando caminho o quanto pude para tentar descobrir aonde aquilo ia dar. Não demorou muito, avistei um pedaço da Avenida Goiás. As pessoas vinham de todos os lados e se aglomeravam em volta do monumento ao bandeirante. Mas a estátua de bronze já não estava mais lá.

– O que está acontecendo? Por que estamos aqui? – perguntava a quem quer que passasse ao meu lado. Mas todos apenas seguiam sem se desconcentrarem. Quando finalmente desisti do interrogatório e resolvi acompanhar a procissão, alguém tocou meu braço:

– Ele está solto – disse a senhora da pregação – E todos aqui têm que ajudar a retorná-lo ao seu devido lugar.

– O que você está dizendo? Eu só estava indo pra minha casa. Como faço pra sair daqui? – disse, descrente a respeito do que tinha acabado de ver e ouvir.

– Você não pode ir muito longe. Ele está armado e não está sozinho – ela insistia para que eu ficasse, dessa vez apertando meu braço.

A multidão estava cada vez mais agitada, e eu já quase não ouvia o que a senhora tinha a me dizer. Quando concluí que o melhor a fazer era sair logo de lá, meus planos foram interrompidos pelo barulho de um tiro que encobertou todas as ladainhas e palavras de ordem. O pânico se instaurou. As pessoas se jogaram ao chão com as mãos sobre as cabeças. O meu desespero se misturou à gritaria que tomou conta do lugar. De esguelha, notei que a cidade inteira parecia estar ali, formando aquele tapete de gente que havia se tornado o cruzamento das avenidas Anhanguera e Goiás.

Não demorou para que todos também se pusessem a voltar, no sentido do Eixo, em direção à Avenida Tocantins. Nas calçadas, as pessoas se abarrotavam para tentar se esconder nas lojas, e as ruas passaram a ser ocupadas por carros que passavam recolhendo quem estivesse pelo caminho. De dentro, só pude enxergar as mãos que saíam das janelas e puxavam crianças pelos cabelos, enquanto elas lutavam aos choros do lado de fora.

Os eixos se transformaram em valas onde os atropelados eram jogados indiscriminadamente por pessoas que, no escuro da noite, não se sabia de que lado vinham e para onde iam. Poderia ser qualquer um de nós. Das ruelas surgiam legiões de olhos ensandecidos segurando tochas e porretes. Eu não sabia em quem podia confiar e quem poderia salvar além de mim mesma. Labaredas tomaram conta das esquinas, e a fumaça cheirava pele queimada.

Na maratona pela sobrevivência, a atmosfera oscilou entre a calada da noite assombrosa e o alvejar desesperador de tiros e gritos de dor. Grupos de pessoas eram cercados e grilhões afixados a seus tornozelos, enquanto eram levados para os ônibus que os aguardavam nas plataformas do Eixo. As barras de ferro da Anhanguera se transformaram num painel de tortura, onde mulheres eram amarradas, enquanto olhavam em direção ao céu, como se esperassem por uma salvação milagrosa. Muitas pessoas que eu havia cruzado o olhar um pouco antes já estavam estiradas no meio da Anhanguera. Entre elas, a senhora da pregação. Morta, com um tiro no meio da testa.

Não sei por quanto tempo corri sem rumo, mas em certo momento percebi que os gritos da multidão já começavam a se dissipar. Então resolvi parar para tomar fôlego, ainda consumida pelo pânico que tinha acabado de experimentar. E foi quando testemunhei o prenúncio de tudo no que se transformariam as nossas vidas a partir daquela noite.

***

Este conto faz parte da comemoração especial de dois anos da Revista Cajá. Ao longo das próximas semanas, novos contos do mesmo universo temático serão publicados na revista. As ilustrações foram elaboradas e criadas pelo arquiteto e urbanista Rodolpho Furtado, do projeto @Pigmentos.

Maria Clara Dunck é doutoranda em Literatura, escritora e umas das mediadoras e fundadoras do clube de leitura Leia Mulheres em Goiânia. Também escreve para a revista Cajá e integra o Coletivo e/ou.

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