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O crime do Cinemão

Cajá com sal | 04/12/2017

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O crime do cinemãoPor Déborah Dias

Se eu não estivesse com ressaca, caminhando pelo centro depois de uma sessão de filme você poderia duvidar de mim. Mas não desperdiçaria esse tipo de história assim, sem motivo. Eu conheci a Lúcia, posso dizer porque trabalhei com ela. Puta mesmo. Nasceu puta! Tomou tapa na cara de muito macho até vir pra cá.

A Lúcia veio pra Goiânia numa caravana de doidas. Todas doidas. Ela era boa de arear panela e por isso não foi promovida a puta. Ficou por conta da limpeza. Cozinhava pra todo mundo, da turma da casa, não falava muito. Ficava grata com resto das latinhas de cerveja. Mais feia que a morte! De um acidente que ela sofreu, ficou um pedaço de buraco na perna, que ninguém via o final. Uns cortes atravessados na costela, nas costas e até na cara. Prestava não.

Acontece que um dia as meninas do bando foram para o cinema, era uma inauguração. E se esqueceram de lembrar de Lúcia. Compraram sapato, meteram pó de arroz na cara e foram. Lúcia, quando soube da última menina a sair, que estavam indo para o cinema, contrariou muito e andou pelo centro atrás do comboio. Chegou ao cinemão quando todas tinham entrado, mas não conseguiu entrar, parou na porta espiando de longe. Quando a porta precisou se fechar para que o cinema escurece, Lúcia foi embora.

Como se qualquer filme fosse uma história mais interessante que a sua própria, Lúcia voltou outro dia no cinema, em outro horário, agora sem as meninas, sozinha, e encontrou o cinema vazio. Subiu as escadinhas que levavam à sala de projeção e começou a descobrir aquele universo do qual ela nunca participaria. Virou aqui, mexeu ali, enfiou sua cara pelo buraquinho que dava vista pra tela um encaixe perfeito.

No mundo, aquele foi o espaço que a coube melhor.

Aprendeu então a hora certa de chegar, espiar o cinema e sair. E fez disso a sua rotina. Um dia, o responsável pela sala chegou e encontrou Lúcia entretida na sala e perguntou o que ela fazia por ali. Pediu que fosse embora, que ali era lugar de coisa séria. Mas ela não obedeceu, e voltou nos dias seguintes, até que esse senhor lhe fez uma proposta: eles dariam um jeito de aproveitar melhor o cinema, já que as sessões durante o dia ficavam muito vazias… já que Lúcia estava sempre por ali, não custava nada ela ajudar.

E assim, ela foi promovida, como não foi quando chegou a Goiânia. Ela poderia sentar para assistir o filme, e o resto era com ele. Um homem iria chegar, sentar ao seu lado, e ela faria o seu trabalho, enquanto o filme passava na tela. Era trabalho sutil, rápido, coisa prática para homens que passam uma tarde no cinema pra espairecer.

Esse era o estrelado de Lúcia, sua parte hollywoodiana na vida, a tela era toda dela, e ela podia esconder no escurinho suas cicatrizes que vinham de diferentes lugares.

Toda carreira tem seus altos e baixos, mas a dela foi diferente, ficou só no baixo. E numa tarde de novembro, uma mulher seguiu o seu marido à sessão vespertina e o encontrou Luciano durante a exibição. A mulher em fúria, gritou afugentando os outros dois homens e suas acompanhantes, e até o seu marido arteiro. Tirou de sua bolsa uma faca e aprofundou de uma maneira violenta em Lúcia. Uma, duas, três vezes. E ela ficou no chão, esgotada de sangue, com um poço ao seu redor, que escorreu suave no declínio da sala. Morreu de olhos abertos, onde refletiu ainda cenas do filme.

O hábito da acompanhante de cinema nunca acabou, mas dizem que Lúcia nunca mais foi embora dali. No cinemão do centro ainda se vê Lúcia com seus cortes e pernas perfuradas. Ela anda ainda encontrando com pessoas que não a vêm, assistindo filmes que não estão passando, e sentada aleatoriamente nas tardes do cinemão. Dizem, e é verdade, quando você entrar num cinema, pode olhar pra trás para conferir.

Eu mesma a vi, com seu rostinho pequeno e feio, enfiado na sala de projeção, mirado para a tela, como se as luzes de lá saíssem dos seus olhos.

***

Este conto faz parte da comemoração especial de dois anos da Revista Cajá. Ao longo das próximas semanas, novos contos do mesmo universo temático serão publicados na revista. Leia agora O Demônio da Anhanguera, de Maria Clara Dunck. As ilustrações foram elaboradas e criadas pelo arquiteto e urbanista Rodolpho Furtado, do projeto @Pigmentos.

Déborah Dias é Bacharel em Literatura, publicitária e goiana.

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