VACA AMARELA

Não dá mais para fugir de 2017

Alpendre Cultural | 23/09/2017

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créditos: Thales Xavier

créditos: Thales Xavier

Cobertura de Galtiery Rodrigues

A história contada às pressas era sobre um objeto não identificado que teria cortado os céus de Goiânia por entre os prédios do Jardim Goiás, visto por ele enquanto deixava uma passageira que mora na região. “Era do tamanho de um ônibus, voando baixo e cheio de luzes”, descreveu o motorista da Uber, aparentando ainda certo medo e dando detalhes intencionais para que eu não duvidasse do relato. E ele falava, falava, sem dar espaço para qualquer coisa que não fosse aquilo. O foco da conversa, no entanto, só durou o tempo suficiente de ele perceber que eu estava a caminho do Centro Cultural Oscar Niemeyer (CCON), onde ocorreu ontem a primeira noite da 16ª edição do Festival Vaca Amarela.

O que era necessidade urgente de falar transformou-se em curiosidade, surgindo logo a pergunta sobre quais seriam as atrações da noite no festival. Não demorou muito, porém, para a fala inconveniente do motorista voltar a dar o tom da conversa. Bastou que eu dissesse o nome de Pabllo Vittar. A reação foi tão imediata que nem deu tempo de eu falar o Doce do nome da banda Carne Doce, que também se apresentou ontem. Parei no Carne, sendo interrompido pela expressão disfarçada do que se convém chamar de preconceito: “Ah, não me diga que você está saindo da sua casa para ir lá ver Pabllo Vittar?!” E continuou: “Cara, eu não suporto aquilo”. E finalizou com a famosa frase: “Assim, nada contra, até tenho vários amigos homossexuais que gostam, mas…”

A noite começava então de um jeito, digamos, memorável, no sentido controverso da palavra. Os contrapontos de tudo isso, no entanto, estavam por toda parte. Nem precisou entrar no festival para identificá-los. A bandeira LGBT pendurada na barraca de bebidas do lado de fora do CCON, que mais tarde viraria o “after” dos shows, já dava o recado. Na fila, as drag queens montadas, com referências de Pabllo, Lia Clark e outras, os leques batidos emanando o Vráh por toda parte, a desconstrução no jeito de se vestir e se expressar, os peitos de fora da garota que dançava com as amigas, os casais abraçados por toda parte, jovens, adultos e até crianças davam a certeza aos desavisados: 2017 é agora e já não dá mais para fugir disso.

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Todas as atrações da noite tinham mulheres na formação, como bem lembrou a cantora Bruna Mendez durante seu show. Todas elas representaram algum discurso para além das visões rasteiras e insistentes da sociedade. Desde Salma Jô, da banda Carne Doce, com algumas de suas composições e músicas fortes que retratam experiências femininas, passando pelas garotas do Sapabonde, grupo de lésbicas de Brasília que enlouqueceu o público com o que elas definem de neo baile funk de roda lésbico proibidão new laje até a Pabllo Vittar, a drag queen com o maior número de seguidores nas redes sociais de todo o mundo e cuja ascensão tem ultrapassado as fronteiras do Brasil e despertado o interesse da mídia internacional.

Os acontecimentos da semana, claro, não deixaram de ser mencionados. A decisão liminar do juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, da 14ª Vara do Distrito Federal, dando aval para a prática de terapias de reorientação sexual, a chamada cura gay, foi citada diversas vezes. A menção mais incisiva foi das meninas do Sapabonde, que instituiu no palco a Igreja Lesbiteriana, sendo ovacionadas pelo público, e encenaram uma cura hétero com o auxílio da linguagem da xana. As risadas diante do tom cômico que deram à crítica não mascararam a seriedade da causa. Elas lembraram, inclusive, da vulnerabilidade e do esquecimento que a parcela transexual da comunidade LGBT é costumeiramente obrigada a enfrentar. “Aquela parcela que não tem nem como usar um atestado médico para se dizer doente, porque não tem nem trabalho”, disseram.

Talvez, o juiz, a psicóloga que questionou na justiça a proibição de terapias de reorientação sexual, fato que gerou a polêmica decisão, e até o motorista da Uber que disse não suportar “aquilo”, referindo-se a Pabllo Vittar, devessem presenciar a realidade que estava lá escancarada na noite de ontem. Seria uma forma interessante de eles, finalmente, entrarem em 2017. Os ingressos esgotaram. O Palácio da Música estava lotado. O show mais esperado do dia foi um acontecimento. Desde as duas panes no som que silenciaram o microfone da Pabllo no início da apresentação, deixando a cantora indignada – “Eu me preparei para Goiânia, pô!”, disse – até as seis vezes em que os fãs invadiram o palco para abraçá-la, quase machucando-a em uma das tentativas, tudo foi de uma intensidade memorável, e mais uma vez no sentido controverso da palavra.

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O que não dá para negar é a força dos hits que hoje ocupam o topo dos rankings nas plataformas de streaming no Brasil. Ela chegou a ter três músicas entre as cinco mais tocadas no Spotify, na última semana. Para quem já pôde ver a Pabllo nas primeiras apresentações em Goiânia, quando ela cantava em boates, numa estrutura minúscula e em palcos improvisados, com certeza vê-la grandiosa hoje, sendo a atração principal de um festival como o Vaca Amarela – vale lembrar inclusive da passagem dela pelo Rock in Rio, cantando ao lado da cantora Fergie – e comandando um público muito maior, é algo que faz pensar. “Foi aqui que eu fiz os primeiros shows da tour Open Bar. Tenho um carinho imenso por Goiânia”, disse.

Essa representatividade inquestionável é o contraponto máximo do momento atual. É algo necessário, que fortalece um público que se vê cada vez mais encorajado a se expressar e enfrentar os preconceitos. Afinal, já estamos em 2017 e é preciso refletir sobre o que insistentemente pensamos ainda hoje. Há um algo inadequado e impróprio em não respeitar e aceitar o que está posto e é natural. Vai ver o objeto não identificado que teria sobrevoado o Jardim Goiás na noite de ontem, conforme relato do motorista da Uber, veio para buscar ele e tantos outros que preferem viver à espreita da realidade. Vão hoje ver os shows da Linn da Quebrada e da MC Carol. É mais uma chance para isso.

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