Fica 2017

Mostra ABD Cine Goiás: O que você esqueceu de lembrar?

Alpendre Cultural | 24/06/2017

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Mostra  desta sexta-feira trouxe para o Cine Teatro São Joaquim produções goianas que trabalham a memória afetiva

Cena do filme do filme Real Conquista produzido por Fabiana Assis

Cena do filme do filme Real Conquista produzido por Fabiana Assis

por Redação

Com um recorte da produção autoral do cinema goiano, a Mostra ABD Cine Goiás chegou ao fim na noite de sexta (23) revelando personagens grandiosos de um Brasil-profundo. A sala do Cine Teatro São Joaquim permaneceu lotada na terceira sessão da mostra “Paisagens da memória”. A maioria dos trabalhos apresentados partem para o resgate e contato com a lembrança afetiva do Estado: em alguns momentos admirando a paisagem urbana e moderna e em outros, a regionalidade do interior goiano.

Também vale citar as obras que servem tanto de “porrada” como de alimento. Muitas produções que concorrem nessa Mostra trabalham desarranjos sociais por meio do filme e produzem um espaço inédito para personagens complexos da cultura contemporânea e tradicional.

Em 2017, a Mostra ABD completa 15 anos, junto ao tombamento do patrimônio histórico da cidade pela Unesco, caracterizando uma vitrine do cinema regional. Para participar da Mostra ABD, existem duas restrições básicas: o formato curta-metragem e a regionalidade. Outro detalhe específico desta parte da programação do Fica é a liberdade dos temas que não precisam estar relacionadas ao meio ambiente.

“Aquelas Ondas” de Rochane Torres, deu início a mostra regional. O curta-metragem brinca com jogos de estranheza com paisagens nada corriqueiras paras as bandas de Goiás: o mar e suas ondas. No sentido fílmico, a produção parece se apoiar em áudios trocados pelo aplicativo Whats App para falar sobre distância e proximidade. As “ondas” a que o filme se refere podem ser tanto marítimas quanto eletrônicas, que carregam mensagens, assim como garrafas soltas no mar.

A estreia do realizador Tothi Cardoso “A Câmara de João” deu sequência à sessão. O filme conecta dois momentos históricos, através das lentes de uma câmera analógica, em um resgate ao tradicional bairro goiano, Campinas. Entre o avô e o neto, se posicionam o passado e  presente, o analógico e digital, o velho e novo, Campininha das Flores e o atual bairro de Campinas. Delineiam também uma analogia entre a escuridão da cegueira do avô (revelada ao final do filme) e suas memórias fotográficas.

Sob a direção de Daniel Duarte, o curta experimental “Hora do Brincar” caminha pelo universo lúdico de crianças que, aparentemente, não possuem o natural acesso à tecnologia, tão fundamentado nas brincadeiras infantis de hoje. Por meio dessa “falta”, talvez a imaginação escorra de maneira mais fluida e desperte nos pequenos uma maior sensação de liberdade criativa como brincar na quadra de futebol ou inventar uma história para a máquina de escrever.

A reapresentação do curta metragem de Benedito Ferreira “Algo do que fica”  – também exibido na Mostra Competitiva de quarta-feira – trouxe o silêncio ao fim sessão, diferente da primeira, onde se ouvia algumas gargalhadas, dentre o público. Um dos aspectos, talvez percebidos numa segunda vez, foi a sutileza ao tratar sobre a seriedade do Césio 137, parecida com a indiferente visão dos goianos perante o assunto. A figura do velho representa o próprio acidente radiológico, quando o personagem não é notado até que, ao final do filme, se revela com todas as suas imperfeições. A ironia na qual o roteiro se desenrola pauta também esse descaso, ou esquecimento proposital, dos habitantes de Goiânia.

Por fim, “Real Conquista”, caracterizado pelo único documentário da terceira sessão da ABD (que também será exibido neste sábado na Mostra Competitiva) foi dirigido por Fabiana Assis, em resultado de um trabalho de Pós Graduação, sob orientação do professor e montador Eduardo Escorel. Ao falar sobre a desocupação do bairro Real Conquista, em Goiânia, Fabiana trás à tona o olhar feminino de liderança de uma das participantes do movimento, que encabeça todo o contexto do curta, segundo sua própria experiência. Entre relatos, fotografias, memórias e desenhos, arquivos da época conceituam o cenário completamente assustador (e às claras) do ocorrido. Com uma observação atenta e reflexiva, “Real Conquista” parece ser ainda mais atual, ao falar de cidade e conceito de lar, que reverbera pela voz da personagem. Ao final, a pergunta que se finca é “Que lugar habitamos?”.

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