CRÔNICA

Morte e Vida

Quintal Ilustrado | 05/08/2016

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POR JARLEO BARBOSA

Jarleo queria ser jogador de futebol, mas acabou sendo cineasta. Todo ano planeja escrever um livro no ano que vem.

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Lonely Carma (Edward Hopper)

Lonely Carma (Edward Hopper)

Dessa inconciliável dissincronia entre o que se gostaria de ser e o que se é, dessa precariedade de estar sempre a um passo de qualquer coisa, da insuficiência da linguagem que transforma todo esforço de comunicação em mero índice; pulsão do que queria ser. Dessa frágil sensação de que falar é sempre contornar o indizível num impulso vão de querer nominar seja lá o que for.

Desses domingos ocos cheios de saudade, onde uma luz débil invade a sala, criando no canto da parede uma geometria dramática de sombras. E a tarde, outrora vazia, agora era um palco, ou uma tela, onde o tempo ia se deslocando lento, como se carregando dentro de si a história de tantas outras tardes onde tudo que era e tudo que haveria de ser se condessava num instante, o exato instante onde se podia conceber a ideia, antes remota, de morrer.

Mas também há as quartas-feiras. E há espanto solar de fazer parte do mundo e o sentimento fugaz de integração com o que quer que seja. Vez em quando surge essa brecha mágica no tempo onde tudo que lhe escapa encontra morada no outro. E aí há o refúgio do silêncio,  a calma de habitar apenas no momento, sem futuro, nem destino.  A tal paz nos desaventos.

Desses domingos ocos cheios de saudade, onde uma luz débil invade a sala, criando no canto da parede uma geometria dramática de sombras.

E há no meio disso tudo a vida; os carros, as previsões metereológicas, o pão duro de ante-ontem, os lotes baldios, o reajuste salarial, o chopp que veio quente, o impeachmeant, o e-mail enviado, o som de construção, a quarta corda arrebentada do violão, a tomada de três pinos, o cheque especial, o tumor, as baratas, o césio e a rinite. Uma orquestração incessante de sim e não, oxidando o correr dos dias, corroendo tudo que se insere entre a materia e a poesia.

E há nesse deslocamento constante, entre toda solidez e volatilidade, um abatimento pelo transcurso do tempo que se mescla a uma celebração frequente por tudo que está, nesse momento, nascendo. Como se o luto fosse buscando no próprio voabulário o seu antônito perfeito, mediando esses dois polos para que o que há de mais secreto na vida possa se revelar, como se o luminoso e sombrio pudessem, enfim, se conciliar.

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