CINEMA

Uma balada, alguns bons amigos e cães

Entrevistas | 14/11/2015

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ENTREVISTA COM LEONARDO MOURAMATEUS

Leonardo Mouramateus é diretor do filme A Festa e os Cães. Atualmente é mestrando em Arte Multimedia na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

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Festas com amigos, alguns tantos rolos de filme, uma câmera analógica. Em entrevista à Cajá, o diretor do curta A Festa e os Cães Leonardo Mouramateus afirma que seus filmes são feitos para serem exibidos em salas de cinema. “A experiência só é completa nessa situação.”

 

POR CLENON FERREIRA

 

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Uma câmera analógica na mão. Alguns bons amigos para fotografar. Festas e cachorros. Vencedor do prêmio de melhor filme da 15ª Goiânia Mostra Curtas, a obra A Festa e os Cães surpreende pela simplicidade. Durante as filmagens de História de uma Pena, o cearense Leonardo Mouramateus comprou uma máquina e passou a registrar o set de filmagem, a festinha depois da gravação, o seu bairro em Fortaleza e os cães de rua.

O resultado pode ser visto nos 25 minutos de filme, praticamente todo ilustrado pelas fotografias sobre uma mesa e histórias sendo narradas pelo próprio Leonardo ou por seus amigos que, ao longo da obra, tornam-se também o meu, seu, nossos. Lançado no Cinéma du Reél, em Paris, A Festa e os Cães foi exibido pela primeira vez no Brasil no É Tudo Verdade. Depois disso, o filme rodou. Literalmente.

Foi parar no Olhar de Cinema em Curitiba, no Cachoeiradoc, nos festivais e mostras de curtas de São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Vitória. Em Goiás, ele participou da primeira edição do Pirenópolis.Doc e do Fronteira. Esteve também no Panorama da Bahia e no Janela de Recife. Longe de casa, o filme passou por Barcelona e Argentina. E a agenda continua. Em breve ele será exibido em Portugal, Florença e Havana.

Em entrevista à Revista Cajá, Leonardo, que hoje mora em Lisboa (como já é reiterado no filme), afirma que a sua principal matéria de trabalho para a produção do curta foi o cotidiano seu e de seus amigos. “Essa sensação ‘palpável’ talvez nasça disso. De contar essas histórias de tal maneira que essas não fossem somente as nossas histórias, e fosse possível ao filme agregar mais vozes (assim como mais fotos) infinitamente.” Para ele, o centro do filme não está no próprio filme. O centro do filme está fora dele.

“Meus filmes são feitos para serem exibidos em salas de cinema. A experiência só é completa nessa situação”

 

CAJÁ: A Festa e os Cães fala, sobretudo, sobre nostalgia. Hoje você mora em Lisboa. O olhar sobre o filme e tudo o que é falado nele mudou depois do lançamento do curta?

LEONARDO: Mudou um pouco, mas creio que mudará muito mais. É estranho falar de nostalgia num filme que foi feito no ano passado. Mas talvez seja uma palavra válida, na medida em que o que estava sendo registrado era em tempo presente, o fim de um ciclo. De outro modo, A Festa e os Cães poderia ser um filme que nunca acabasse caso a câmera que usei nunca tivesse se quebrado. Isso tudo fica ainda mais claro pra mim, porque perdi a obsessão por fotografar logo depois do fim do filme. Me aposentei antes mesmo de começar essa carreira.

 

Ilustrado por fotografias, a maneira simples e direta de se reproduzir a narrativa faz com que o filme torne-se palpável, como se qualquer um pudesse estar nas fotografias, nas festas, com os cães. Poderia nos contar como foi desenvolvido todo o processo de produção do filme?

Foi um filme muito barato de se fazer. Tinha uma câmera, amigos que estão nas fotos, ou narrando, ou na equipe, e uma estrutura mínima: uma câmera emprestada, um programa de edição. O filme narra as coisas quase de maneira cronológica. Comprei uma câmera, vi que aquelas fotos eram pareciam bem mais do que fotos de um fim-de-semana. Comecei a estruturar dramaturgicamente as coisas. As coisas iam crescendo aos poucos, quase como se o filme fosse um documentário (risos). A matéria de trabalho era o meu cotidiano e o cotidiano dos meus amigos. Essa sensação “palpável” talvez nasça disso. De contar essas histórias de tal maneira que essas não fossem somente as nossas histórias, e fosse possível ao filme agregar mais vozes (assim como mais fotos) infinitamente. O centro do filme não está no próprio filme, o centro do filme está fora dele.

 

Chris Marker, sobretudo em La Jetée, serviu de referência direta pra você?

Não diretamente. Outro dois filmes foram essenciais pra feitura desse. Nostalgia, do Hollis Frampton e As fotografias de Alix, de Jean Eustache. Que são filmes muito pequenos, pobrinhos, de diretores gigantes.

 

A Festa e os Cães ganhou o principal prêmio da Goiânia Mostra Curtas, em edição de ouro de 15 anos. Os festivais são as principais janelas de exibição de curtas? Como você lida com a relação internet-cinema, já que seu filme estava disponível no Canal Curta?

Os festivais são, sim, a principal janela, mas acredito que foi na internet que meus filmes obtiveram mais público. São duas coisas a serem pensadas juntas hoje. Meus filmes são feitos para serem exibidos em salas de cinema, a experiência só é completa nessa situação. Mas a internet é vital nesse tipo de trabalho.

 

Já têm projetos para outros filmes?

Estou filmando algo em Lisboa, que se chamará António Um Dois Três. Há um longa a ser feito, chamado A Pista de Dança, que vai vir depois disso. E outras tantas coisas que ainda precisam de tempo para decantar.

 

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