ESPECIAL LITERATURA

Meu amigo Pio Vargas

Cajá com sal | 27/01/2016

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Trabalho da artista visual Camila Roriz

POR WALACY NETO

 

Eu estava pronto para a guerra. Lembro que às sete horas me armava com dois comprimidos, um gole largo de água e minhas roupas de uniforme. A noite acabava sempre três minutos antes de o relógio pular inquieto anunciando que eram sete horas da manhã. Ainda me lembro da lateral do dedo que amanhecia com cheiro pavoroso de cinzeiro, das várias mesas e, principalmente, dos meus amigos de orelha e coração. O mais próximo eu levava dentro da alma. Pio Vargas era aquele amigo que fazia alguns poemas. Nós dois éramos funcionários da Secretária de Cultura de Goiânia, eu num tédio tremendo e ele de assessor técnico. Mas seu melhor (dês)serviço eram os poemas – que faziam os dias passar e os oceanos pasmar.  No cartão que carregava estava mesmo escrito: “Pio Vargas: poeta” era a identificação que usava.

A noite tinha um poder de oportunidade que o dia parecia não oferecer. Nas rodas dos bares e ruas da cidade um verdadeiro “bando” seguia o jovem poeta. A declamação era o forte entre eles e eu acompanhava de longe, meio inquieto por fora, mas sossegado por dentro. Pio Vargas carregava uma alegria de viver que devia transbordar. Era fato que logo inundava. A luminosidade da pessoa não era a mesma que se via nos poemas. Estes eram carregados de sentimentos tempestuosos, confusões e confissões dos mil “eus” que viviam ali dentro do poeta. Em um poema chamado Poema 999 ele dava dicas para seu epitáfio: Quando eu morrer/ escrevam no meu túmulo:/ aqui dorme pio/ que era poeta nas horas vagas/ O que distanciou de tudo/ pra continuar mudo/ com suas amarras. No mesmo poema ele assume as mil faces. Pensando bem/ escrevam mais:/ aqui dorme pio/ que sendo um/ foi quase mil. Sendo mil, Pio, viveu mil anos em 26. Uma vida meteórica que parou a jornada de um dos maiores poetas que Goiás iria ver e que eu vi frente a frente no peito.

Entre as coisas que não se dissipam da teia de memórias, me lembro que íamos muito em um bar na esquina da Av. 82 com a Av. Universitária, mas não me lembro o nome. Tinha também o Paiol, que o Pio adorava. Era onde ele fazia os lançamentos da editora Porra Nenhuma, que ele mesmo havia criado e publicava livretos em xerox dos seus seguidores. Também foi onde lançou a coleção Divagar e Sempre. Eu gostava de um bar chamado Casa 20. “Eu vou até o meu limite”, sempre dizia isso e me arrepiava a armadura. Pio Vargas, disso me lembro, saia todos os dias.

Lembro que ele andava para todos os cantos de Goiânia com um livro de baixo do braço. Qualquer livro que fosse Pio carregava e lia e lia com extrema vontade. Ele havia estudado bem pouco, sendo que toda sua veia poética surgiu enquanto morava na cidade de Iporá, no interior de Goiás, em encontros com o escritor e atual presidente da União Brasileira dos Escritores de Goiás (UBE-GO), Edival Lourenço.

Nunca fui tendido pro ofício de poeta. Desde um pouco antes do meu contato com o Pio Vargas eu já fazia letras de músicas. Se chamam de poesia qualquer coisa que escrevo eu nego, não são poemas, eu digo, são apenas canções que não deram certo. Pio Vargas tinha essa vontade e até um pouco de tesão pela música e me pedia com frequencia que o ajudasse a criar nessa área. Ainda guardo uma pasta com poemas curtinhos que ele havia me entregado, na minha sala, enquanto pedia que eu terminasse as letras. Nunca tive tempo. Eu e Pio não tivemos mais tempo juntos um pouco depois daquilo. O relógio é cruel.

8 de março de 1991. Lembro que Pio tinha 26 anos e fazia uma viagem para o interior do Estado. Participava de um evento sobre o Meio Ambiente, ainda pela Secult. Eu em Goiânia, em uma festa ao lado de alguns amigos. Alguém me liga com uma notícia ruim, por telefone, o que deixa a notícia ainda mais ruim. Faz, atualmente, 24 anos que Pio Vargas teve uma overdose que lhe tirou a vida. Naquele momento Goiás perdeu a possibilidade de ter um dos maiores poetas do Brasil nas páginas de livros de história. Vi Pio e lhe dei um murro no centro do peito e não sei até hoje direito o porque, mas de fato abriu uma barragem nos meus olhos: chorei.

Se sinto saudades de Pio Vargas? meio que sim meio que não. Sinto saudades é do futuro que Pio não teve e também dos anos que eu podia ter e não tive com sua amizade por perto. Minha saudade é assim: pra frente. Pra frente. Pulsante.


Essa reportagem foi escrita com base nas histórias compartilhadas por Carlos Brandão. Queria, mas não conheci Pio Vargas. Dele eu sei dos poemas. Inclusive, coloco aqui o meu poema favorito que, por pura ação do destino, é também o preferido de Carlos: O Despertáculo.

Des­per­tá­cu­lo

Es­tou pron­to
pa­ra a guer­ra que en­con­tro
quan­do acor­do:

bo­tei vi­gia nos sen­ti­dos
e ilu­di com com­pri­mi­dos
ou­tros se­res a meu bor­do.
Aban­do­nei o ví­cio
de es­tar sem­pre
a so­le­trar ru­í­nas,
dei li­ber­da­de a meus de­ten­tos
mi­nha pres­sa di­lu­iu nos pas­sos len­tos
e ras­guei
meu ca­len­dá­rio de ro­ti­nas.

In­ver­ti a or­dem.

Já não saio por aí
a de­vo­rar com­pro­mis­sos,
to­mei pos­se no go­ver­no de mi mes­mo
e der­ro­tei os meus omis­sos.

Ven­ci a ba­ta­lhas
de ter que es­tar sem­pre por per­to,
às ve­zes voo pa­ra den­tro
do meu so­nho a céu aber­to.

Es­tou pron­to:

eu já con­cor­do
com a guer­ra que en­con­tro
quan­do acor­do.

 

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