LITERATURA

Manoel de Barros: o Mágico das Palavras

Quintal Ilustrado | 05/10/2016

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POR DÉBORAH DIAS

Déborah Dias é Bacharel em Literatura, publicitária e goiana.

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Manoel de Barros

Manoel de Barros

Quando se lê o poeta mato-grossense Manoel de Barros, todos os sentidos se põem em alerta, pois somos incluídos em sua brincadeira de escrever. Como coube a mim esse presente de falar um pouco sobre ele, conto a vocês um pouco das principais características da obra do escritor, afim de instigar o leitor a buscar em suas páginas a grandeza que existe nas coisas mais simples.

Nesse ano, comemoramos 100 anos do nascimento de Manoel de Barros, portanto, levantar suas principais características e espalhar seus versos a quem possa chegar é uma homenagem que prestamos à sua poesia com um passeio delicado e breve pela criação literária de uma das maiores revelações poéticas contemporâneas.

Pela sua maneira peculiar de ver, o poeta se tornou um nome forte na literatura nacional, ainda em vida, com muitas obras publicadas e muitos prêmios conquistados. Lançou o seu primeiro livro em 1937, os Poemas concebidos sem pecado e o último, em 2013, o Portas de Pedro Viana. Produzindo, portanto, na maior parte de sua vida, por mais de 70 anos. Morreu em 2014, aos 97 anos. Com seus mais de 30 livros lançados, conquistou muitos prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Jabuti, em 1990.

Ler Manoel de Barros é sentir o que ele tem a dizer, digo sentir pois a leitura é um convite ao uso de todos os sentidos, com os quais ele brinca, convidando o leitor a um passeio onde se pode ouvir o que ele ouve, sentir os mesmos cheiros que ele sente e também a textura das coisas. Um poeta de sentir vai muito além da leitura simples, feita com os olhos. Isso é coisa muito pouca para ele. Quem chega até Barros percebe sua personalidade marcante, que já se firmava desde as primeiras obras (as iniciais ainda marcam uma fase de busca do autor, mas a personalidade literária é logo definida).

Ler Manoel de Barros é sentir o que ele tem a dizer

A herança da oralidade, que se faz presente em sua narrativa, dão uma liberdade criativa lexical registrada através de neologismos, que são novas palavras, tomadas de outros significados. Esse brincar com a palavra é, literalmente, o que o poeta faz com mais calma, muitas vezes abrindo mão do significado de dicionário, para trazer um universo agregado em cada uma de suas escolhas vocabulares.

A relação do homem com a natureza, característica tão marcante nas literaturas neolatinas, é revisto e apresentado com uma “delicadeza de borboleta”, em muitas obras de Manoel de Barros. Há uma sensação de que o poeta faz mágicas com as palavras, as jogando de um lado para o outro, escondendo-as e voltando com elas de uma maneira diferente, multiplicando, sumindo com partes, modificando, revelando significados diferentes daqueles com as quais chegaram antes do início da mágica, pois para ele “o verbo tem que pegar delírio”.

Esse brincar com a palavra é, literalmente, o que o poeta faz com mais calma

Manoel de Barros dá as palavras permissão para elas serem o que quiserem e irem até onde puderem, o que torna sua obra repleta de redescobertas.Transformava coisas inúteis em objetos de extremo valor poético. É o poeta que se interessa pelo que pouco interessa aos outros, pelas coisas pequenas do mundo: gravetos, animais rastejantes, pedrinhas, restos de coisa do mundo, que, não fosse pela arte, jamais alcançariam status de objeto poético. Mas, como ele, tudo se reveste.

A aceitação da vida, a observação das miudezas, se torna real através da palavra, e abrem um questionamento de um homem universal com a natureza a seu alcance:

“ Palavras que me aceitam

 como sou

— eu não aceito.”

Por isso, mais do que comemorações pelo centenário de Manoel de Barros, deixamos o maior presente: Um convite a esse passeio por sua poesia, e, através dela, por um mundo de coisas pequenas e significados grandiosos.

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