84 ANOS DA CAPITAL DE GOIÁS

Goiânia, foi-me dado o direito de falar contigo

Alpendre Cultural | 27/10/2017

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divulgação

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Não era uma comemoração de Halloween antecipado, mas Goiânia completou 84 anos na última terça-feira (24),  e não foi convidada para a sua própria festa. Pouca gente ouviu a música, grande parte de nós estávamos extasiados, nos perguntando qual o motivo para um desfile cívico, que marchou amuado sob um sol de outubro ou nada, sem nenhum contexto cultural reflexivo e democrático.

Há mais de oito décadas se lançava a pedra fundamental de uma cidade projetada sob o signo da modernidade. Naquela época os políticos, os gestores e a população  deveriam imaginar vários momentos de festa em nossa nova capital. E de fato houveram. Goiânia, não sabemos muito bem o porquê, tem alma boêmia e povo talentoso, uma diversidade artística que encanta frequentemente outros territórios mundo a fora.

Nos últimos anos, muitas iniciativas têm se apresentado no espaço da cidade: ocupação do Setor Sul, com oficinas que repensam o espaço e lhe trazem vida; festa e movimentos pelos becos da cidade, como o da Codorna, no Centro; pessoas que dançam por acaso em esquinas; e tantos outros, que fazem da cidade uma galeria de arte aberta com seus lambes, grafites e pixos; que usam qualquer espaço como um palco de teatro e performances; tudo isso é vida, é festa, e temos que comemorar – isso no centro da cidade, na cidade formal. Como falar da periferia que deve ser pulsante mas, infelizmente, desconhecemos?

Goiânia, não sabemos muito bem o porquê, tem alma boêmia e povo talentoso

Segundo a professora e arquiteta-urbanista Ermínia Maricato, o direito à cidade se equivale a festa urbana, que só acontece em cidades que expressam e respeitam a diversidade e usam seus espaços mais valorizados para oferecer lazer, cultura e serviços à população. Para que isso aconteça é preciso que se valorizar a história sem parar no tempo; investir em ações que ocupem e apresentem vida a cidade; diminuir distâncias de casa para o trabalho e garantir que todos os cidadãos possam circular de maneira segura e barata pela cidade.

Os coletivos que ocupam Goiânia sabem de cor e salteado essa lição e tem colocado em prática ações que trazem o gostinho de ter uma cidade em festa, ainda que timidamente. Dizemos timidamente porque não é, de fato, tarefa que se possa alcançar só. Poder público e empresários tem que se conscientizar que só quando toda a população tiver acesso ao bônus por ela produzido é que a festa vai será completa.

Toda essa energia criativa que encontra no espaço urbano é dissipada – ao invés de ser capitaneada. Instituições de classe preferem uma parede branca à um espaço vivo, usado (lotado), impregnado de arte; a festa da democracia nas ruas é atravessada por um cassetete certeiro; quem opta por não andar de carro é atropelado por um sistema que não o reconhece; nossas grandes obras arquitetônicas são sem nenhum nexo  – ao invés de potencializar o patrimônio edificado, espaços livres e usos já existentes. Nossa cidade cresce, mas não para de crer ser. Terror!

Só a rua salva

Caminhar por Goiânia, sem uma finalidade estabelecida, pode ser uma forma de resistência. Talvez se experimentássemos o gosto do seu passado, aprenderíamos a valorizar a ancestralidade impregnada dos seus edifícios, nos permitindo o deslumbre com o novo, sem esquecer os ecos de seu passado criativo.

O pensador francês David Le Breton defende o caminhar, porque sim, como forma de resistência atual.  Para ele, caminhar, eliminando da prática qualquer tipo de apreciação útil, com uma intenção decidida de contemplação, implica uma resistência contra esse utilitarismo e, ocasionalmente, também contra o racionalismo, que é o seu principal benfeitor.

“É muito importante que as cidades encontrem um equilíbrio entre os recursos que garantam a sua prosperidade e a qualidade de vida dos que nelas residem. De outra maneira, as cidades tornam-se entidades desumanizadoras. O fato de caminhar por suas ruas sem nenhum interesse em comprar ou em gastar dinheiro, somente em vagar sem rumo, daqui até ali, porque sim, também é uma forma de deixá-las mais humanas, de rebelar-se contra as ordens que convertem todas e cada uma das interações humanas num processo econômico”, afirma Breton.

Nossa Goiânia velha, como bem salientou Gal Costa, é uma metrópole vertiginosa, de um caos estranhamente silencioso e abrupto. Costumes interioranos ressurgem a cada esquina e contrastam com edifícios modernos, ocupações e condôminos fechados. Gente apressada ou lentidão passiva dos jogos de dama na calçada; parques de um verde resistente, botecos, pit dogs, césio, trânsito, viola, rock – tudo cabe aqui.

A festa da democracia nas ruas é atravessada por um cassetete certeiro

Para respirar Goiânia é necessário sentir que a capital vibra o desconcertante efervescer dos inícios urbanos; é preciso se perguntar quem é essa cidade para além do seu Centro ou dos bares do Marista. É preciso olhar demorado para os setores periféricos, andar por suas ruas tortuosas e entender que é de lá, também, que surge, acelerada, a onda transformadora dos corpos e almas. Classes sociais e origens se mesclam, e desse turbilhão inexplicável, onde a teoria não se aplica, brotam os contornos necessários para a compreensão do atual desenho goiano.

Como dizia Pio Vargas, nosso grande e imortal poeta marginal: “Goiânia, foi-me dado o direito de falar contigo…” e não apenas falamos, podemos senti-la como parte, percebendo que a modificamos e que ela nos modifica, na mesma medida. Abrir-se através das andanças inspiradas, nos revelará o que sequer esperamos encontrar. Nos permitir a aventura urbana diária é aumentar o nosso sentido de pertencimento a uma cidade em construção. Goiânia, com certeza, agradece.

Edinardo Lucas, professor de Arquitetura e Urbanismo na UFG – regional Goiás

Isabela Dias, jornalista

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