Fica 2017

Fica 2017: Texturas, cores e vivências ancestrais dão forma às manhãs de festival

Alpendre Cultural | 21/06/2017

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Fica 2017: Texturas, cores e vivências ancestrais dão forma às manhãs de festival

Victoria Acerbi 

Nas manhãs do festival, as cores invadem e pincelam um bonito cenário na brisa matinal

O dia vem amanhecendo colorido e fresco na cidadezinha histórica. Artesanato, sorrisos da criançada, adornos indígenas, imagens em movimento e uma série de olhares curiosos perante a programação da 19° edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental. Para arejar corpo e mente, a Tenda de Práticas Populares em Saúde inicia o dia com Yoga e práticas corporais entre uma vivência e outra. A Tenda Multiétnica abriu as atividades na quarta-feira com muita arte e artesanato indígena e os pequenos já acordaram prontos para assistir a IX Mostra Infantil FICA Animado. Minicursos e oficinas de Cinema e Meio Ambiente também reiteram ao conteúdo cuidadosamente selecionado para o engrandecimento dos participantes do festival.

Conhecendo o Jongo

Na Praça Brasil Caiado, logo no cair da manhã de quarta-feira, já se via olhares esbugalhados da moçada curiosa pela programação do festival. Ronaldo Oliveira agrupou uma roda de crianças e adultos para ensinar um pouco da dança afro-brasileira nascida nos quilombos: o Jongo. O mineiro mora na cidade de Goiás há 20 anos e após muito tempo de imersão estudiosa sobre o Jongo, atualmente, lidera o grupo Malungos de Angola, que se reúne uma vez por semana para abraçar a vivência herdada das comunidades quilombolas, voltada mais pela questão cultural à religiosa.  Segundo Ronaldo,  antigamente, a prática era vivida como uma espécie de jogo, onde só os velhos anciões participavam através de desafios de metáforas, na destreza de perguntas e respostas e guiadas por um tambor – atabaque ou caxambu. Segundo Ronaldo, também conhecido como Corimá, o Jongo, juntamente com a Capoeira e o Samba de Roda compilam uma vertente ancestral interligada, onde uma prática se encontra presente dentro de outra.

Durante a oficina, o grupo vilaboense Malungos de Angola, composto principalmente por crianças e adolescentes, puxavam o coro das respostas do Jongo, enquanto algumas outras crianças tentavam compreender o sentido que aquilo tudo transmitia. Ora perdidas, ora imersas no Jongo, a criançada ainda não inteirada da prática acabou se soltando e pareceu se encantar com aquela sonoridade toda. Entre dança, palmas e respostas, o cenário ancestral tomou conta do Largo do Chafariz.

Os pequenos e Ronaldo entendendo o Jongo

Entre sorrisos e Ipês

A doçura de dona Waldira Rodrigues se misturava com as cores de suas roupas e chapéu, enquanto organizava seus artesanatos na Praça Brasil Caiado. O trabalho manual dela, se baseia em reproduzir árvores e pássaros do cerrado, mesclando elementos reais da natureza, como troncos de árvore e bambu, com tiras de tecido. Há 40 anos, dona Waldira “roda o Brasil” como ela mesmo se refere, vendendo o seu trabalho de dourar os olhos. A manauara também ministrará uma oficina de reciclagem de retalho para crianças, durante o festival, quando vive os personagens Boneca Wal e Chicão. Waldira conta que adora teatro e uma de suas personagens, a menina do subúrbio, é a sua atuação mais próxima dela mesma. “Faço teatro desde quando morava na roça, não tinha televisão né?”, finaliza.

Fica 2017: Cores e ancestralidade colorem a manhã do segundo dia de festival

A doce Waldira e suas árvores artesanais

Adornos em Jenipapo

Entre traçados indígenas marcados na pele, as meninas se perguntavam do que era que isso se tratava.”Sai com bucha tia?”, indagaram e Tsik Tso, da aldeia Rik Baktsa, já adiantou o processo, dizendo durar dez dias no corpo. Segundo ela, cada pintura tem um significado bastante peculiar, mas cheio de intensidade. João Dorneles, que está trabalhando na Tenda Multiétnica durante o festival, fez questão de ser ornamentado e disse que “a pintura tem o significado de honra e resistência para os povos”. O estudante de Turismo foi prestigiado por uma tribo Xavante recentemente com adornos, por resgatar imagens para um filme da aldeia, que promete sair no vigésimo Fica.

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Sob o sono da manhã, as meninas curiosas questionavam a “tatuagem” sendo feita por Tsik Tso

Pingos de luta

O início da conversa com Guará, já começou bem direcionada. “A desvalorização do artesanato é um vício da época do Império, quando a elite não permitia o reconhecimento de trabalhos manuais, até então feito por escravos”, nos conta o artesão, cheio de referências históricas e filosóficas. O estilo de Jairo Sobrinho já insinua o poder de sua arte, que se pauta em diversas plataformas: desde o papel machê com isopor que cria esculturas gigantes e firmes; Xilogravura; Reaproveitamento de pallet até a madeira esculpida com imenso cuidado detalhista. Embora Guará tenha chegado na antiga Vila Boa há três anos para terminar o segundo grau, o artista expõe seu trabalho no Fica desde a primeira edição do festival. Em suma, ele nos conta estar ligado às expressões artísticas desde que se entende por gente e incita que o conteúdo de sua arte está ligado diretamente a uma mensagem. “Busco explorar o cultural e o social, dando a devida importância ao ‘povo-base’, que construiu esse país com muito suor”, reitera. Seu descontentamento perante a situação política atual pode ser pincelado simbolicamente, também em sua astúcia artística.

Fica 2017: Cores e ancestralidade colorem a manhã do segundo dia de festival

Guará é um homem sábio

 

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Arte na madeira, por Guará

 

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Xilogravura de Guará

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