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Fica 2017: Entre paradoxos e fotografias gritantes se deu a abertura da Mostra Competitiva

Alpendre Cultural | 21/06/2017

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Cena do último filme exibido na Mostra Competitiva, “The Reflection of Power”

Victoria Acerbi

Abordagens questionadoras abriram a sessão de cinema da Mostra Competitiva

A abertura da Mostra Competitiva, inaugurando o Cine Teatro São Joaquim, se deu na tarde dessa quarta-feira (21/6). O início partiu de um documentário francês, de 72 minutos, sob a direção de Christine Seghezzi, denominado “Histories de la plaine”. Através de depoimentos chocantes, o desenrolar do contexto acontece por meio de imagens tão impactantes, quanto o próprio tema. Permeado por uma fotografia incisiva e ao mesmo tempo quase estática, o filme relata a questão da fertilidade das terras nos pampas argentinos, quando percorre indagações como o sacrifício de seres-humanos, animais e meio-ambiente pelo uso de pesticidas e monocultura e suas respectivas consequências. Dentre as percepções do público, foi possível observar algumas pessoas deixando a sala de cinema, literalmente enojadas, ao ver cenas fortes de um frigorífico.

Por seguinte, deu-se a exibição do documentário brasileiro, dirigido por Alan Schvarsberg, “Ninguém nasce no paraíso”, com duração de 25 minutos. O enredo pincela uma realidade assustadora, quando mulheres afirmam suas histórias tristes de gestação interrompida na ilha de Fernando de Noronha, sendo expulsas aos 7 meses de gravidez. Paradoxalmente, é feita uma analogia às tartarugas marinhas, que encontram políticas de preservação enquanto a espécie humana é praticamente posta em “risco de extinção” em decorrência dos travamentos gestacionais. As mulheres denunciantes  comparam a situação a um verdadeiro estado de guerra onde, ironicamente, relatam o bom tratamento dos turistas e a indiferença política sobre a tal indagação vital. Um tanto chocante ouvir os relatos de pessoas que praticamente precisam pedir licença para procriar, entrar (e estar) em casa.

O terceiro filme exibido ficou por conta da direção de Benedito Ferreira, com a ficção de 23 minutos “Algo do que fica”. A história se passa em Goiânia, ao lado do lote do acidente do Césio 137, quando avós e sua neta estão prestes a se mudar pela brevidade da demolição da casa onde moram, em decorrência da construção de um museu. Impossível não assimilar a trama, com suas diversas peculiaridades, à cultura goiana. Por meio de um olhar irônico e quase cômico, por resultado da possível familiaridade de quem assiste e se identifica ao contexto,  elementos do filme destacam o jeitinho goiano pelas sugestões do roteiro. Curiosamente, houveram gargalhadas para um final melancólico.

Encerrando a Mostra Competitiva Vespertina, a bela fotografia do documentário francês “The Reflection of Power” pareceu inundar os olhares da sala de cinema. Sob direção de Mihai Greco, o filme de 9 minutos, transcorre a realidade da Coreia do Norte, quando delineia seu cenário sombrio da decadência do sonho comunista, através do simbolismo do elemento água, que parece afundar o cenário e questionar o paradoxo de uma humanidade que ignora os limites do planeta. Insensibilidade, revolta e obediência entram em contradição nas imagens que parecem gritar por dentro, quando por fora estão explodindo perfeição.

Na continuação da Mostra Competitiva, a noite iniciou abraçando a animação japonesa “Railment”, sob a direção de Shunsaku Hayashi, que em caráter experimental, mergulhou em cores e rabiscos profundos que circundam a palavra “movimento”, que acelerado ou retardado, causam certa distorção no espectador. O documentário chileno “El Ruido de los trenes”, dirigido por Cristian Saldía deu continuidade à mostra, percorrendo um povoado sulista do Chile, que até a década de 70 era uma grande estação ferroviária; nesse contexto, o filme aborda pequenos gestos que mostram a relação entre o ser humano e a paisagem, num lugar que se encontra em desaparecimento.

Por fim, o documentário brasileiro “Da Margem do Rio o Mar”, sob direção de Rei Souza, discorreu um breve ensaio sobre a beira de rua. Segundo o diretor, o impacto que ele busca propagar no público é de contribuição com os deslocamentos dos olhares, através dos processos do ver, rever e do descobrir. “Me interessa despertar o espanto nos espectadores, como se eles pudessem, à partir do filme, refletir em indagações como ‘não reparei na minha realidade ou neste e naquele detalhe que o filme revela’ “, conta Souza. De acordo com o cineasta, é como se saísse para o mundo com esse desejo de ver as coisas de maneira diferente, o que dialoga muito com a causa ambiental, já que é um processo ético de descoberta do outro, caracterizado quase como uma contribuição para o reconhecimento de si como um sujeito político.

Fica 2017: Entre paradoxos e fotografias gritantes se deu a abertura da Mostra Competitiva

“Histoires de la plaine”, dirigido por Crhistine Seghezzi

 

Fica 2017: Entre paradoxos e fotografias gritantes se deu a abertura da Mostra Competitiva

“Ninguém nasce no paraíso”, sob a direção de Alan Schvarsbeg

 

Fica 2017: Entre paradoxos e fotografias gritantes se deu a abertura da Mostra Competitiva

“Algo do que fica”, dirigido por Benedito Ferreira

 

Fica 2017: Entre paradoxos e fotografias gritantes se deu a abertura da Mostra Competitiva

“The Reflection of Power”, de Mihai Grecu

 

"Railment", dirigido por Shunsaku Hayashi

“Railment”, dirigido por Shunsaku Hayashi

 

"El ruido de los trenes", dirigido por Cristian Saldía

“El ruido de los trenes”, dirigido por Cristian Saldía

 

 

 

 

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