CINEMA

“Eu só filmo quando me comovo”

Entrevistas | 04/02/2016

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ENTREVISTA COM VLADIMIR CARVALHO

Vladimir Carvalho é cineasta.

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No dia em que completou 81 anos, o mestre Vladimir Carvalho concedeu uma entrevista exclusiva à Revista Cajá nos jardins do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. 

 

POR MARIA CLARA SENRA

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Imagem do filme Cícero Dias – O Compadre de Picasso, de Vladimir Carvalho

Filho de Luiz e Maria José, criado entre os trilhos do trem e o rio que corta a pequena cidade de Itabaiana, no interior da Paraíba, Vladimir Carvalho da Silva nasceu em 1935 e tomou gosto pela leitura logo cedo, o que o empurrou para um destino diferente da maioria dos meninos daquela região. Aos oito anos, foi tomado pelo êxtase de ver as primeiras imagens em movimento, em Mamanguape, a 50 quilômetros da capital João Pessoa. Vladimir descreve esse momento como “deslumbrante e inesquecível”, mas enfatiza que foi quando assistiu ao filme O Homem de Aran, do americano Robert Flaherty, que a vontade de contar histórias reais na tela grande o arrebatou por completo.

Mergulhou de vez no ofício em 1959, quando foi chamado por Linduarte Noronha, que havia sido seu professor de geografia na escola, para escrever o roteiro de Aruanda, obra que registrou uma comunidade quilombola na Serra do Talhado, também na Paraíba, e que ficaria marcada como uma das precursoras do Cinema Novo, sendo considerada por muitos críticos como uma das mais influentes da filmografia nacional.

Curioso e engajado, rodou boa parte do Brasil, especialmente a caatinga e o cerrado, conhecendo gente e registrando histórias, em especial as que denunciavam as injustiças do país. Estudou filosofia em Salvador, foi jornalista, virou professor da Universidade de Brasília e com seus documentários construiu, ao lado de outros ícones como Eduardo Coutinho e Leon Hirszman, o cinema brasileiro, sobretudo o não-ficcional.

No dia em que completou 81 anos, o mestre Vladimir Carvalho concedeu uma entrevista exclusiva à Revista Cajá nos jardins do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Com sete longas e mais de 20 curtas nas costas, o diretor consagrado por clássicos como Conterrâneos Velhos de Guerra e O País de São Saruê falou sobre as inspirações e desafios do seu próximo longa-metragem: Cícero Dias – O Compadre de Picasso,  que está em fase de finalização. Em uma hora e meia de conversa, recheada de causos e piadas, confessou: “Só filmo quando me comovo, é de dentro para fora”.

“O que você filmou se transforma muitas vezes”

Revista Cajá – Cícero Dias – O Compadre de Picasso encerra uma trilogia composta pelos filmes O Homem de Areia e o Engenho de Zé Lins, que aborda a vida de personalidades nordestinas das artes. Qual foi o pontapé inicial desse projeto? Como aconteceram esses seus encontros com a obra do Cícero ao longo da sua trajetória?

Vladimir Carvalho – Faltava fazer um filme sobre alguém das artes plásticas e eu sempre fui apaixonado pelo Cícero, principalmente por causa do meu pai. Em 1948, eu presenciei uma discussão dele com um tio meu, que era muito reacionário, a propósito de uma exposição que o Cícero Dias fez em Recife nesse mesmo ano, logo depois que voltou da França. Na época, as pinturas dele já estavam bem diferentes do que eram no final da década de 20. Ele já estava bastante iniciado no abstracionismo, o que foi um choque pra muita gente. Houve um grande impacto e até certa comoção dentro da comunidade intelectual porque aquele Cícero que eles estavam acostumados a ver, ou seja, figurativo, lírico, já não existia mais. Essa briga entre parentes virou uma história famosa na família e eu nunca esqueci. Engraçado que há uns trinta anos, eu até comecei a pintar umas coisas, uns quadros, fazer uma guache (sic) para tirar uma casquinha disso tudo. Muito tempo passou, e quando teve o ano do Brasil na França, em 2005, o governo convidou alguns cineastas para exibirem seus filmes em Paris. No avião, na revista de bordo, descobri que lá estava acontecendo uma retrospectiva da obra de Cícero e que, no letreiro principal, havia uma menção ao Zé Lins (escritor José Lins do Rego). Como eu estava finalizando um filme sobre ele na época, não tive dúvida de que visitaria a exposição. Tivemos um dia livre e resolvi ir até o local. Enfim, filmei a frase do Zé Lins, mas quando vi tinha um monte de quadros do Cícero que eu nunca tinha visto, umas coisas enormes. Eu não perdi a oportunidade e comecei a rodar. Quando olhei para o lado, vi um grupinho e no meio dele, Jean Boghici, o galerista. A gente já se conhecia e ele aproveitou para me apresentar a viúva de Cícero. Foi aí que ela, a madame Raymonde, me chamou para conhecer o ateliê dele, que tinha falecido dois anos antes. Eu aceitei na hora. No dia seguinte, filmei tudo no ateliê, peguei entrevista com a viúva e com a filha, mas sem nenhuma pretensão. Faz uns dois anos que resolvi olhar o material e estava uma maravilha. Fiz mais um monte de entrevistas e vi que ali tinha um filme.

RC – Então, você nunca tinha pensado em fazer essa trilogia, foi acontecendo naturalmente…

VC – Isso. Aconteceu ao sabor da vida. Mas ao mesmo tempo eu sempre me interessei pelas artes e pelo modernismo.

RC – Como nenhum outro documentarista, você tratou da luta, das histórias, e das angústias do homem nordestino, mas o Cícero Dias, apesar de pernambucano, viveu boa parte da vida na França, ficou amigo dos artistas europeus e, inclusive, morreu em Paris. Isso de alguma forma indica um ponto fora da curva dentro da sua filmografia? O fato dele ter vivido fora do Brasil trouxe dificuldades na produção?

VC – Cícero falou “Eu vi o mundo…ele começava no Recife”. Começava, ele disse, não terminava. Hoje em dia a gente faz um “continuum” com o mundo, mas nos anos 20, anos 30, até os anos 60, na verdade, tudo parecia muito dividido. Nós, da periferia; e eles. O Cícero, em um momento crítico do Brasil, em 1937, quando aqui mesmo no Palácio do Catete imperava nosso ditador Getúlio Vargas, foi de alguma forma perseguido pelo Estado Novo. Ele e outros, claro, como Di Cavalcanti, que logo se mudou para Paris. O Di falou com o Cícero e ele nem pensou duas vezes: enrolou o quadro “Eu vi o Mundo…ele começava no Recife” e se mandou de navio para a França. Se fixou por lá, o que foi de uma imensa coragem, e foi acolhido. Hoje em dia é considerado um integrante da Escola de Paris, por exemplo. Tornou-se muito amigo do Picasso (pintor espanhol), a linha de telefone do Picasso era inclusive no nome dele, e o Picasso é até mesmo padrinho da Sylvia, filha dele. E foi isso…ele fez duas carreiras, uma aqui e uma lá. Quanto à produção, eu usei essas entrevistas que fiz da primeira vez em Paris e, na segunda vez que fui, tentei filmar as referências como, por exemplo, o cemitério onde ele foi enterrado, ao lado de Sartre, de Simone de Beauvoir, de Susan Sontag. Era esse aspecto de “mundo” dele que eu queria mostrar. Até o cemitério, apesar de ser um ambiente meio estranho [risos], dá essa dimensão de quem ele era também. Mas é lógico, a primeira fase da obra dele, antes da ida para Europa, é muito, muito forte, dominante, e está presente no filme. O importante é ver que ele foi um artista que evoluiu, que conseguiu dar esse salto, sempre permeado por influências e absorvendo essas influências.

RC – O seu irmão Walter Carvalho e o João Moreira Salles fizeram uma entrevista com o Cícero que nunca foi encontrada. Você ainda procura esse material?

VC – Quando eu filmei aquelas primeiras entrevistas lá em Paris e voltei para o Brasil,  contei para o Walter o que tinha acontecido e ele comentou na mesma hora que tinha feito uma entrevista com o Cícero, no ateliê. Fiquei muito empolgado porque eu não tinha nenhum depoimento dele falando para a câmera. O Walter falou com o João, que disse que eu tinha total liberdade para usar o material, mas que teríamos que procurar nos arquivos da produtora. Faz dez anos que eu busco isso, mas nunca encontrei. Nesse exato momento eu estou finalizando o meu filme, ele está fechado. Se esse material aparecesse agora seria de uma emergência, que nem sei se daria conta. Não deixei de procurar, claro, mas acabou que no longa-metragem eu optei por usar uma outra entrevista inédita dele, realizada no fim da década de noventa, que me foi cedida.

RC – Você é um diretor-montador, que está sempre na ilha de edição acompanhando cada passo da estruturação do filme. Mas montar é também ter que abrir mão de algumas coisas e sei que você diz ter falhado nessa tarefa algumas vezes [risos], como em Conterrâneos Velhos de Guerra, um filme de três horas. Como você se relaciona com esse processo de montagem? Como funcionou no Cícero?

VC – São coisas que acontecem [risos], de vez em quando a gente perde a mão. Mas eu vejo alguns diretores, principalmente de filmes de ficção, que dizem “terminei de filmar, agora o filme está com o editor”. Na ficção isso talvez seja até plausível, principalmente quando você segue um roteiro fechado, um roteiro de ferro, definido plano por plano. No documentário, você está criando o tempo inteiro, desde quando você roda até a finalização, então não existe razão para fazer umas entrevistas e abandonar o material com o montador. No Cícero Dias, quantas vezes eu e Gabriel (Gabriel Medeiros, montador do longa-metragem), olhamos o conteúdo juntos e pensamos em coisas que estavam faltando, que precisavam ser encontradas ou filmadas. É um processo porque a autoria no documentário é total. Tudo é importante desde o início: a ideia, a pesquisa – pra ter conhecimento de causa -, e a descoberta do filme. O que você filmou se transforma muitas vezes. A montagem é um processo de imensa criação. A minha relação com a edição não é complementar e tem a ver com a noção de que muitas vezes o filme nasce ali. Antigamente eu dizia, “não podem cortar nem um fotograma sem eu estar presente”.

RC – Você afirmou não ter muita expectativa em relação à quantidade de público que esse novo documentário vai atrair. Olhando para a sua filmografia dá pra dizer que você já falou sobre personalidades brasileiras muito importantes, mas muitas vezes, desconhecidas do grande público. Um exemplo é a cena inicial de O Engenho de Zé Lins, onde os jovens que estudam na escola que leva o nome dele não sabem dizer quem ele foi. A questão é: para quem você faz os seus filmes? Qual o seu principal objetivo ao contar essas histórias?

VC – Eu tenho um beneficio: nunca filmo sem aquilo ser um tema que me importa muito, sem ter maturado o assunto, sem ter certeza de que eu gostaria de ver aquilo materializado. Nunca fiz filme de encomenda. Eu só filmo quando me comovo, é de dentro para fora. Meus filmes são aventuras pessoais. Antes de mais nada, eu tenho que estar muito satisfeito e gostar daquilo que estou fazendo, às vezes, até para diminuir minha própria ignorância. É claro que eu tenho uma preocupação com o público, então busco ter uma noção de que pelo menos eu estou ajudando, de alguma forma, no entendimento de realidades que eu penso que ainda não são totalmente conhecidas, que não foram completamente absorvidas, fatos que não estão totalmente claros. Quando eu vejo alguém sendo conservador em relação à arte, penso que o Cícero Dias, por exemplo, pode colaborar para uma aproximação. É uma possibilidade das pessoas interagirem com o novo.

RC – Você começou a fazer cinema em uma época muito fértil, onde os cineastas eram muito engajados na política. Nesse sentido, como você enxerga o cinema brasileiro hoje?

VC – Eu entrei na onda do Cinema Novo, que era um cinema-manifesto. O Aruanda, segundo a literatura disponível sobre o assunto, é um filme básico para o entendimento do documentário no contexto daquela época. Esse cinema queria a transformação da sociedade, queria mudar o Brasil. E claro, isso teve a ver com os acontecimentos da época e com a ditadura militar. Hoje o mundo é outro, mas eu sinto falta de ver o Brasil na tela. O cinema hoje é mais diverso, é mais amplo, mas não tem a mesma força, ou melhor, as mesmas intenções do cinema engajado dos anos cinquenta e sessenta: proposital, ideológico. Hoje tem espaço pra tudo, mas eu sinto uma ausência desse ímpeto transformador. O cinema brasileiro não está dando esse recado e eu não sei o porquê.

RC – E como é comemorar 81 anos?

VC – Olha, eu não vinha celebrando desde os cinquenta. No ano passado eu achei que valia, como eram oitenta, principalmente porque eu me surpreendi. Você do nada descobre-se velho, eu nunca me imaginei como um senhor de oitenta anos. Eu digo hoje que estou abrindo uma nova série, mas sem comemoração [risos].

OBS: Antes do início da conversa, providenciamos um bolo de improviso para que nosso mestre pudesse soprar as justas velinhas no dia de seu aniversário.

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