ENTREVISTA

“Escórias da noite, abram o caminho; satan é mulher”, diz Aline Bueno, autora do zine Demônia

Quintal Ilustrado | 14/04/2017

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MARIA CLARA DUNCK

É escritora, redatora, doutoranda em literatura, pesquisadora de teorias do gênero e contracultura e mediadora do #LeiaMulheres Goiânia.

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Crédito: capa do zine Demônia, de Aline Bueno

As articulações e práticas feministas sempre foram refutadas. Em todas as épocas. Aprendermos que as lutas das mulheres eclodiram em ondas – estaríamos vivendo agora a quarta –, o que se trata de uma visão pedagógica muito útil que busca organizar a série de esforços, resistências e conquistas das mulheres, sem afirmar que houve recuo ou ignorar que nunca faltaram motivos para continuar a luta.

Conscientes de que existimos em espaços interditados, sendo alguns tão impedidos que neles nem ao menos existimos, a produção artística se apresenta, muitas vezes, como a possibilidade de ocupar, por meio da expressão, um lugar que nos é direito. Na literatura, por exemplo, escritoras ainda são menos lidas, menos premiadas, menos compradas, menos pesquisadas. Portanto, menos lembradas, menos ouvidas, menos compreendidas.

Por isso publicações independentes como os zines ou fanzines – revistas feitas de forma artesanal surgidas na contracultura dos anos 1960 – comportam temáticas feministas e revolucionárias, tanto no conteúdo quanto na forma, já que não possuem o crivo e a censura editorial, ditada por preocupações de mercado. No estilo “faça você mesmo”, desenhos, textos, colagens ou outros materiais são colocados livremente sobre papéis, que são fotocopiados e distribuídos em círculos fora do grande eixo de publicações.

 

LANÇAMENTO

 

E é nos zines que a artista goiana Aline Bueno, de 29 anos, se expressa. E com muito conteúdo feminista e transgressor. Belíssimos desenhos e poemas compõem o zine Demônia, que já está em sua terceira edição e será lançada na noite desta sexta-feira, no República Estúdio. O evento, também organizado por Aline Bueno, ainda contará com shows e exposição dos zines Riscos & Rabiscos, por Glauco Mingau.

Bacharel em Artes Visuais pela FAV-UFG, Aline já participou de exposições coletivas e dá aulas de Arte para crianças e adolescentes do ensino fundamental em escolas estaduais. Também faz desenhos e pinturas em tela e produz cartazes e ilustrações para shows e bandas da cena independente de Goiânia. “O que é bem legal, pois são convites que vieram através dos zines também. Muita gente próxima não sabia nem que eu desenhava”, comenta Aline.

Para conhecer um pouco mais sobre a artista e o zine Demônia, a Revista Cajá conversou com Aline Bueno.

Maria Clara – Por que se interessou em fazer zines?

Aline – Sempre convivi no meio punk e underground em que a prática de fazer zines é bastante comum. Meu interesse partiu do contato com esse meio e de uma necessidade de me comunicar.

Maria Clara – Qual processo utiliza para confecção dos zines?

Aline – Faço tudo à moda antiga mesmo. Desenho e escrevo à mão depois tiro cópias xerocadas.

“Faço tudo à moda antiga mesmo. Desenho e escrevo à mão depois tiro cópias xerocadas”

Maria Clara – Se não fosse esse lugar, o dos zines, acredita que poderia expressar a sua arte em outros lugares e da mesma forma?

Aline – Produzir zines é algo bem recente para mim. Comecei mais ou menos na metade de 2016. Antes disso, participei de algumas exposições e muitos eventos vinculados à faculdade. Afinal, eu venho de uma educação formal em Artes Visuais. A vivência com as instituições sempre me causou conflito, pois existe, sim, uma cartilha a ser seguida, “regras” nas entrelinhas que diferenciam facilmente “arte boa” de “arte ruim”. Principalmente quando se trata de arte figurativa, que é o que eu gosto de fazer.

Pra você ter uma ideia, entrei no curso de Artes porque sempre gostei de desenhar.
E a primeira coisa que fiz dentro da universidade foi parar de desenhar. Claro que não existe essa regra clara, mas todo aquele discurso acabou me levando a isso: uma vontade de adaptar minha produção artística ao gosto da instituição. Os zines foram parte importante de um processo de retomada da minha liberdade artística, de reaprender a desenhar e me comunicar através do desenho. Acho difícil que a liberdade de criação que eu tenho nos zines se repita em outros meios, não só pelo conteúdo, mas pelas características específicas de materiais, acesso e distribuição do próprio suporte.

Maria Clara – Conversamos sobre Demônia ser uma obra despretensiosa. O que isso revela?

Aline – A arte é um meio de expressão poderosíssimo e libertador, não só para quem consome, mas também para quem faz. Nesse sentido, acredito que todos nascemos com potencial para a criação artística, à medida que como humanos somos complexos e temos necessidade de comunicação. Mas acabamos aprendendo que produzir arte, ser artista, é algo difícil e acessível apenas para poucos escolhidos que possuem um “dom”, digamos assim. O Demônia ser um trabalho despretensioso vem dessa visão: de que a arte não é feita para agradar ou seguir regras e ninguém pode me dizer se eu posso fazer ou não. De que é, antes de tudo, vontade e necessidade de se comunicar, quando o discurso verbal é (e na maioria das vezes é) insuficiente. Se é boa ou não pro outro, é uma questão que vem depois e não pode ser central no processo de criação.

Arte tem que ser sentida e vivida enquanto feita, e nesse ponto todos podem fazer também. Acredito que à medida que as pessoas veem a arte dessa forma despretensiosa, mais vai acontecer uma abertura para a produção e recepção de trabalhos artísticos.

“O Demônia ser um trabalho despretensioso vem dessa visão: de que a arte não é feita para agradar ou seguir regras e ninguém pode me dizer se eu posso fazer ou não”

Maria Clara – O que sua vivência como mulher influenciou na concepção e elaboração do zine?

Aline – Como o zine é autobiográfico, coloco ali todas as questões com as quais tenho que lidar. A ideia inicial era só me comunicar, já que outras formas de comunicação estavam se mostrando extremamente ineficientes e as coisas não estavam cabendo só aqui dentro mais. E não como algo consciente (apesar de óbvio), as questões relacionadas a ser mulher surgiram ali nos textos e desenhos. Meu lugar de fala vem daí, o que passo como ser humano perpassa o ser mulher mesmo que eu não planeje ou queira isso.  Algo que me motivou a continuar a produzir o zine também foi perceber a carência de mulheres produzindo no meio underground.

Vivemos em um meio que prega o DIY, e mesmo assim temos pouquíssimas mulheres produzindo shows, fazendo zines ou tocando em bandas em Goiânia. Então meio que começou como algo particular, mas que depois encontrei uma motivação política para continuar. Primeiro com os zines, agora também organizando shows. Acredito que essa representatividade pode ser importante. Eu mesma frequento a cena a pelo menos 12 anos e só recentemente estou conseguindo me colocar como alguém ativa na cena.

Maria Clara – No que a terceira edição difere das anteriores?

Aline – Cada edição do zine é uma onda específica, de acordo com o que estou vivendo, com quem estou falando, o que estou lendo e por aí vai… Acho que essa terceira edição está menos pesada que as anteriores, pois estou numa fase menos conturbada, e acho que meus desenhos estão melhorando. Começo a me sentir mais segura e capaz, acredito que isso está refletindo positivamente nos meus trabalhos.

Maria Clara – Uma possível leitura de Demônia toca nas temáticas da dificuldade do diálogo, de criar conexões ou até mesmo afetos. E do controle do corpo, que é retratado nos desenhos como uma prisão. Por que ainda é preciso falar sobre os impedimentos e a falta de autonomia das mulheres?

Aline – Porque ainda passamos por isso constantemente. Eu me pergunto o que de mim vem de ser humana e das imposições sociais gerais que todos passamos e o que vem como reflexo de ser mulher numa sociedade machista, esses impedimentos e falta de autonomia como você disse mesmo. Mas a gente nunca vai saber essa diferença. A insegurança, a culpa, os complexos, a competitividade… são coisas que internalizamos e vamos ficar lutando a vida inteira contra, pois foi tão bem colocado ali que a gente já não consegue separar do que a gente, de fato, é. Ou teria potencial para ser.

Isso pra falar aqui do meu lugar, de branca classe média. Dou aula em uma escola pública de periferia, o que aquelas meninas passam ali, seja em casa ou no próprio ambiente escolar, é pesadíssimo. Muita gente não faz ideia do quanto ainda precisamos discutir e evoluir sobre a forma com que as mulheres são vistas e tratadas na sociedade.

“Muita gente não faz ideia do quanto ainda precisamos discutir e evoluir sobre a forma com que as mulheres são vistas e tratadas na sociedade”

Maria Clara – Quem é Demônia? Por que o profano é elemento central no zine?

Aline – Engraçado que nunca tinha pensado no profano como elemento central do zine. Mas faz sentido, a começar pelo nome. Demônia seria aquela imagem cristã contrária à mulher virtuosa: a  perigosa, a que oferece riscos e tentações ao homem, um ser cruel e traiçoeiro. Acho interessante brincar com essa ideia absurda e com o próprio absurdo de sua aceitação. Então, já que nos querem dentro dos padrões, vamos nos enquadrar no pior exemplo a não ser seguido. É interessante conceitualmente como uma contraposição ao modelo de mulher ideal imposto socialmente, e como forma de expor o ridículo dessa ideia toda (que mesmo em  contextos diferentes ainda é muito presente no ideário masculino).

A Demônia seria essa mulher forte, independente, que não quer se enquadrar ou agradar aos homens e gosta de fazer as coisas que lhe dá prazer. Além disso, tenho uma predileção por livros, filmes de terror e músicas que abordam temáticas profanas. Não acredito em nada disso, mas acho interessante como forma de contraposição, ou mesmo afronta, à ideologia cristã vigente e dominante.

SERVIÇO
Lançamento da terceira edição do zine Demônia, de Aline Bueno

Evento: Demônia 3 + DER, Kurgan, Ímpeto e Dergo no República
Data: 14/04, sexta-feira
Horário: 19h
Local: República Estúdio
Endereço: Alameda Botafogo, 438, Setor Central, Goiânia
Ingresso: R$ 15 (os 30 primeiros ganham uma cópia do zine Demônia)

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