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Cemitério de Campinas: uma temporada no céu

Cajá com sal | 09/01/2018

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Uma temporada no céu

Por Fernanda Garcia

Aquele 4 de dezembro de 1998 havia se tornando um dos domingos mais quentes do ano. Rafael recebeu alta naquele dia, ainda que estivesse um pouco fraco. Já fazia três meses que tinha voltado de São Paulo, prometendo em voz alta que morreria onde nasceu. Largou o emprego no jornal, um apartamento gostosinho na Consolação e suas noites inflamadas na Augusta. “Não adianta: a gente quer engolir o mundo inteiro, anda, anda e anda, mas todos os caminhos nos levam para casa”, me disse uma vez.

Eu estava eufórico por ter meu amigo por perto mais uma vez, embora triste demais pelos motivos que o trouxeram de volta. Já em Goiânia, durante a última e mais longa de suas sucessivas internações, ficou num quartinho de um hospital em Campinas, cuja janela dava para a parte de trás do Cemitério Santana. Sua mãe insistiu para que o mudassem de quarto por causa da vista, mas Rafael gostava, dizia que o azul do muro do cemitério e do céu se confundiam no horizonte. Um acordo de cores conveniente, cafona até, mas que ele achava bonito.

Eu ficava lá a tarde inteira, escondendo meus cigarros, que ele obstinado tentava roubar, jogando conversa fora ou ouvindo uma fita raríssima da Nina Hagen. A onda de terror dos anos 80 permanecia instalada no olhar torto das enfermeiras e nos comentários que as pessoas faziam acerca da doença de Rafa, que seguia com uma lucidez invejável. Ninguém dizia o que era, e também ninguém perguntava, numa pacífica conveniência. Como se o último ato de sua performance estivesse simplesmente chegando ao fim e ele estivesse preparado para fechar as cortinas gloriosamente.

“Lembra, João, como a gente foi feliz aqui, nessa cidade de ninguém?”, perguntou. O olhar sombrio e longe, acompanhando a extensão do cemitério atrás da janela. Era o domingo calorento em que sairia do hospital. Separou suas roupas cuidadosamente e se aprontou como se estivesse se preparando para uma das noitadas de nossa juventude desajustada. Nem a iminência dos trinta anos de idade, muito menos as circunstâncias hospitalares, impediam o visual rebelde-pretinho-monocromático. A mãe e a tia buscaram suas coisas no quarto e eu acompanhei Rafael, que queria ver a rua, caminhar, ali mesmo no instante em que pisasse os pés fora da clínica. Queria ir no Santana.

O dia estava lindo e Rafael radiante. O sol batia imediatamente sobre seu cabelo bagunçado, iluminando o rosto pálido. Cada esquina era uma reminiscência do que ele pensava ter deixado para trás quando se mudou. Tudo parecia fresco novamente. Antes de chegarmos à Avenida Independência, apontei para uma portinha de aço: “A London ficava aqui, você amava”. Ele sorriu.

A London Club era uma das casas do polo puteirístico de Campinas onde rolava uma estranha combinação de rodinhas de punk e dançarinas de strip. Goiânia tinha uma vida noturna relativamente agitada. Subimos uma ruazinha até chegarmos na 24 de Outubro, irreconhecível de tão vazia. Domingo tem dessas, deixa tudo em um estado cadavérico e faz lugares tipicamente movimentados, como o Centro ou Campinas, parecerem maiores. Eu gostava. O Cemitério Santana, que se aproximava enquanto caminhávamos em sua direção, era um fator que agravava a condição meio sórdida daquele dia.

“Credo, João, tua cara tá mais deprimida que a minha”, brincou.

Falei para ele sobre as mutações pelas quais passa o sentimento de saudade. Hoje, só ficou angústia. Rafael apertou minha mão e deu um beijo em meu rosto. Já à frente do cemitério, passamos por um portão comprido de grades brancas, como se anunciasse realmente a entrada no paraíso. Um funcionário dormia despreocupado embaixo de uma árvore, alheio aos restos de resina que pegavam fogo junto à cruz gigantesca no centro do jardim. Achamos engraçado que uma cruz estivesse em chamas justamente quando estávamos lá. Rafael, ainda que um cínico assumido, não era o tipo de pessoa que ignorava acontecimentos sobrenaturais.

“Já te contei que minha mãe me falou que fizeram um trabalho pra mim aqui no Santana? Queriam que eu enlouquecesse e quase conseguiram. Tive fases gravíssimas, uma tristeza que não acabava mais, certeza que foi esse trabalho”, me disse enquanto passeávamos entre os jazigos. Dei risada e ele continuou. “É sério, tinha algum negócio errado.” Um gato preto com olhos fluorescentes passou embaixo de nossas pernas e parou um pouco em nossa frente. Deitou em uma lápide, nos encarando. A lápide pertencia à família Sampaio, onde estava enterrado um casal.

“Sê comigo até que eu venha, nesse dia a terra abafará minha voz, e o mundo não ouvirá a história que te vou contar”, dizia a lápide.

Estávamos muito à flor da pele ou era mesmo um dos epitáfios mais bonitos. Os dois assuntos mais delicados da vida, amor e morte, reunidos como se fossem na verdade as questões mais simples. E talvez fossem mesmo, a gente que escorregava. Rafael amava demais. Teve muitos amores e deixou em São Paulo um escritor louco que picava as veias das mãos. Quando for minha vez, é pra escreverem assim: “amou e sofreu muito/fez valer essa existência mal paga”, falou, projetando o que seria seu próprio epitáfio. Imagino que em meu rosto tenha aparecido um sorriso pequeno e triste.

O gato saltou da superfície azulejada e andou pela estradinha até desaparecer próximo à cruzada, onde o incêndio de resina acontecia ao pé da cruz. O lugar era paz e tranquilidade. Uma solidão confortável. Flores de plástico enfeitavam os túmulos, dividindo o espaço com um despacho. Passamos vários minutos fazendo um inventário dos itens dispostos dentro das capelinhas. Um altar com a foto da pessoa que se foi, quase sempre ao lado da foto de outra pessoa, aquela que amou em vida, uma vela, uma bíblia, uma estátua de um Jesus cabisbaixo, anjos que pareciam ter morado um tempo em Berlim.

Talvez tenham se passado horas sem que tivéssemos percebido.  A resina já não mais queimava e a cruz permanecia intacta. Quando finalmente encontramos o portão da entrada novamente, a Independência estava com um trânsito caótico, comércio aberto, crianças indo ou voltando da escola. Difícil saber. A certeza é que já não era mais domingo. Rafael faleceu em 2002, na casa da mãe, também em Campinas, e até lá não precisou ser internado nenhuma outra vez.

***

Este conto faz parte da comemoração especial de dois anos da Revista Cajá. Ao longo das próximas semanas, novos contos do mesmo universo temático serão publicados na revista. Leia agora O Viúvo do Edifício Bemosa, de Jarleo Barbosa. As ilustrações foram elaboradas e criadas pelo arquiteto e urbanista Rodolpho Furtado, do projeto @Pigmentos.

Fernanda Garcia é jornalista formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Já colaborou com reportagens para a Revista Cajá. Acesse aqui para saber mais.

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