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Cem anos de sequidão na Campininha das Flores

Cajá com sal | 17/01/2018

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Cem anos de sequidão na Campininha das Flores

Por Walacy Neto 

Por muitos anos José dos Reis se lembraria da última chuva de granizo no povoado da Campininha das Flores. A mãe, Mariana dos Reis, correndo entre as roupas no varal, como se apagasse o corpo em chamas. O pai, Antônio Variante dos Reis, contando, emputecido, que havia previsto uma chuva daquelas chegando, “daquelas”. Os irmãos e irmãs, doze no total, dormiam ainda sonhando com a possibilidade de uma chuva forte, sem saber que ela já acontecia.

José era a única criança do povoado que já estava acordada na hora das primeiras gotas de gelo. Enquanto sonhava que andava pelas ruas, ele seguia perambulando, passando pelas casinhas apagadas, que ainda dormiam. Quando se desvencilhou da cegueira noturna, passando entre realidade e o fantástico, se viu então acordado. Na saída do povoado observou primeiro as nuvens grossas. Foi interrompido, já muito longe, por empurrões e trombadas e ombradas de um grupo de pessoas que entrava em Campininha sem cerimônias.

As primeiras gotas de chuva caíram no rosto de José e ele seguiu a massa volumosa de gente. Sentindo de perto o cheiro deles lembrou de um sapo, do cheiro do suor de um sapo e viu a água virando outro líquido na pele deles. Dentro do olho de um forasteiro havia um deslumbre novo, José via muito de perto aquele momento, percebia que era a primeira vez que viam uma chuva dura, petrificada. Desde criança de colo já os olhos grandes, nunca teve tempo para aprender a falar, tentava e se perdia rápido, talvez por um pássaro cantando longe. Herança da mãe, Mariana, que diferente do filho, ficou muda com o tempo, atualmente gesticulando muito pouco o que quer dizer.

No bairrozinho, a característica física ou a ignorância dava nomes às pessoas: uma perna, um olho, uma verruga, um tropeço, a cor do cabelo. O pai de José chamavam Variante e a mãe chamavam de Muda. Já ele, o menino calado no canto, ninguém nomeava por uma diferença, mas pela semelhança. Os rostos dos treze filhos dos Reis se misturavam e confundiam o povo, sendo eles chamados de “Ninguém” e só.

Às vezes o chamavam “Ninguenzinho” ou apenas de “Nim” e ele gostava, até ria silencioso. Achava que isso era o mais estreito dos relacionamentos e, mesmo que efêmero como uma chuva de granizo, já era suficiente.

Eram no total trinta pessoas, a maioria homens e algumas mulheres, que chegaram no povoado sem aviso. Nim ia acompanhando calado, movido pelo cheiro do novo que saía da pele suja daquelas pessoas. Sem perguntar, foram ter abrigo embaixo da ponte de madeira que atravessava um rio de águas diáfanas e rasas.  Um clarão estourou acima da ponte, de repente, e desandou num barulho, como se um torrão do céu caísse. Uma tora de água veio carregando gravetas, todo tipo de sujeira do fundo do rio, levou também a ponte e alguns dos forasteiros. Nim pegava pela mão e puxava quem conseguia. Tentava tirar eles dali, como se salvasse seus próprios irmãos.

Nim resgatou dez dos trinta que chegaram. As malas que traziam rapidamente foram devoradas pelo rio. Dentro deles Nim viu o princípio de raiva, que nunca havia chegado ali: seca, dura e árida. Sentiu o medo, de uma forma pura como um pássaro. Pegou apressado a mão de um deles e foi puxando, desse vez eles o acompanharam.

*

Numa manhã quente Nim acordou de um sonho tumultuado de lembranças. A imagem da primeira a chuva de granizo, da mãe correndo como se o corpo estivesse pegando fogo tirando as roupas do varal, o pai bravo com a certeza que se concretizava e de vinte pessoas levadas pelo Rio das Tormentas.

A primeira vez que viu a chuva de granizo, que viu pessoas morrendo a esmo, era agora uma memória enterrada sobre dez anos de história e seca. Nunca mais havia caído uma gota de água na região de Campininha das Flores. Desde a chega dos forasteiros. Os dez sobreviventes ficaram por ali, montaram casas, cortaram árvores e com sua tecnologia avançada derrotaram o primeiro inimigo que encontraram naquela região: o Rio Tormentas. E depois derrotaram o que era um inimigo de ninguém: a chuva.

Naquela manhã quente, Nim viu que quase nada tinha a função de antes. O céu azul, por exemplo, não iluminava nenhuma ideia ou admiração da sua parte, pelo contrário: era indício da condenação de um povo, a água como lembrança. Tudo que era agora não era mais.

Chegando à fazenda de algodão, percebeu que muito do que plantavam não era alimento. A fazenda de algodão fechava o horizonte por todos os cantos e os moradores de Campininha das Flores usavam, às vezes, apenas uma peça de roupa. Na tarde daquela mesma manhã quente, Nim viu os forasteiros saindo da cidade, calmamente. Levavam roupas, e muitos objetos na bagagem. A cara deles, muito clara refletindo o sol, ia se pondo no fim da estrada. Nunca mais os forasteiros voltariam na cidade.

*

José dos Reis, o Nim, foi o primeiro morador de Campininha à morrer de sede. Primeira vez também que Antônio Silva Reis, o único filho que teve, chorou pela vida. Pensando nos rios, na chuva, em tudo que o pai deixou escrito num caderninho que achara. De acordo com a data no manuscrito, naquele dia completaram-se 100 anos de seca.

No mesmo dia Antônio partiu no rumo descrito pelo pai, onde antes passou um rio de águas diáfanas e rasas. De certa forma caminhava entre as linhas em busca da chuva, ia trazer de volta no mínimo uma gota de água – a dos seus próprios olhos daria se fosse necessário.

Na sétima noite ele sentou já cansado de andar. A sola do pé ardia com cinco bolhas eradas, que quando ele cutucava brotava uma aguinha grossa. “De onde vem essa água?” falou sozinho, esperando alguém responder se podia beber um pouco. Sem resposta, chorou. De repente vislumbrou um clarão na sua frente, entre alguns galhos, algo refletia a luz da lua cheia ou talvez uma estrela que caída emitia seu último suspiro de energia.

Quando aproximou, faltando uns 20 metros, acreditava estar cego. Sentia que entre a areia haviam pedaços de madeira que se partiam facilmente com a força dos seus pés. Percebeu que eram ossos e crânios, quando ajoelhado, se arrastando. Caiu. Começou a chorar muito, enquanto as primeiras gotas de chuva desciam pelo seu rosto. Um encontro de águas que não matava à sede.

*

O que restou do corpo de Antônio foi encontrado por um morador de uma fazenda vizinha. Ao lado dos ossos magros, os restos dos forasteiros que morreram lavados pelo Rio Tormentas. Ao lado dos mortos, seus pertences fora das malas expostos ao reflexo do sol. Ao lado, talvez  a luz onde Antônio se perdeu, um espelho 10x10m, com pequenas nuvens nas bordas.

***

Este conto faz parte da comemoração especial de dois anos da Revista Cajá. Ao longo das próximas semanas, novos contos do mesmo universo temático serão publicados na revista. Leia agora O Cemitério de Campinas, de Fernanda Garcia. As ilustrações foram elaboradas e criadas pelo arquiteto e urbanista Rodolpho Furtado, do projeto @Pigmentos.

Walacy Neto é poeta, criador do selo literário Zé Ninguém. Publicou, em 2017, o livro de contos e poemas “Muito Pelo Contrário”, pela Nega Lilu Editora. Curador do Festival Juriti de Música e Poesia Encenada.

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