Canto2017

Canto2017: O groove e o grave do baixo vibram em oficina do festival

Alpendre Cultural | 06/10/2017

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Oficina de Baixo

Victoria Acerbi

As oficinas do Canto 2017  aconteceram em duas manhãs seguidas, nas salas da UEG

Comportando um número considerável de alunos inscritos, relativamente maior do que o próprio público dos shows noturnos, as manhãs de Pirenópolis abraçaram um contexto mais musical, onde foram ministradas sete oficinas: Cuca Teixeira (bateria), Júlia de Holanda (oficinas infantis), Marcelo Mariano (baixo), Marco Lobo (percussão), Paula Santoro (voz), Rafael Vernet (teclado) e Widor Santiago (sax e flatua).

Marcelo Mariano, com todo o seu estilo peculiar, toca baixo há 35 anos. O músico já percorreu os palcos em turnês longas com Djavan, Ed Motta, Leila Pinheiro, além de participações diversas na sua caminhada musical. Na noite de quinta-feira, o baixista se apresentou no Cavalhódromo no último show da noite: Marco Lobo e Quinteto e Paula Santoro e demonstrou toda a falada em sua oficina, de maneira emocionalmente prática.

A oficina de baixo teve início na manhã de quinta-feira (5) e foi finalizada na manhã de hoje (6). Ao som e presença de pequenos pássaros negros voando pela sala, Mariano compartilhou suas histórias, saberes e conselhos aos meninos baixistas que o ouviam atenciosamente. Iniciou mostrando o seu instrumento de 12 anos de história sob aparência impecável e explicou a importância da qualidade e manuseio do baixo. Dotado de um comportamento profundo de sabedoria pela música, simultaneamente à sua humildade a respeito, Mariano foi capaz de poupar os ouvintes da aula de possíveis futuras frustrações do meio artístico.

O tocar, o toque, a tocada

“Tem gente que toca com a matemática, eu toco com a intuição”, indagou Marcelo. O instrumentista abordou o universo musical sob o ângulo de profissionalismo, mas se referindo a duas grandes distinções, que deveriam caminhar juntas: a técnica e a inspiração. Segundo ele, uma coisa complementa a outra e todas andam para a maestria de fazer música, mesmo sabendo que o copo nunca estará cheio de sapiência, sempre haverá mais uma gota para preenche-lo. Mariano ainda disse sobre a importância de transmitir emoções pela música, o que leva ao sentido do significado único para cada um, muito embora estejam em constante complementação.

O bolso do músico

De maneira descontraída, mas não menos séria, Mariano transitou no universo prático de se manter financeiramente, assumindo a profissão de músico com seriedade e não apenas fazendo música por mero divertimento. “É imprescindível saber administrar o seu salário e a sua respectiva carreira, eu mesmo tenho 35 anos de carreira, mas não tenho casa própria”, disse, sobre a impermanência e a organização necessária para compreender a música como verdadeira vocação. Mariano, que nasceu em um berço sonoro, de pais músicos, também acredita que a arte não conversa com o modelo trabalhista convencional. “Defender a arte na carteira de trabalho não condiz, o formato é outro”, explicou.

A beleza da versatilidade

A sala se curiou quando Mariano tocou na ferida dos músicos, no que diz respeito a própria curadoria ao aceitar trabalhos diversos. Ele salientou que cada um age de uma maneira, mas que é necessário estar aberto tanto para o show enorme na Europa, quanto para os cinquenta pilas de uma tocada num botequim.  Segundo o profissional, tudo é aprendizado, cada qual com o seu devido valor e quem analisa a oportunidade é o próprio músico, baseado em suas precisões. Contou aos alunos sobre a importância de se moldar às situações, mesmo que não aprecie tanto aquela, mas nada como a versatilidade e a abertura para o mundo. “Música de verdade é aquela que está no meu colo enquanto baixista, seja lá qual for”, orientou.

Partindo de onde?

Ao responder a pergunta de um participante, Mariano se emocionou ao falar sobre a importância da percepção musical. Criticou a ausência de escolas especializadas de música no país e ainda reiterou o analfabetismo musical, na qual a população se encontra. Além disso, relembrou o absurdo de não haver educação musical no ensino brasileiro, o que acaba limitando um povo tão musicalizado. Por isso, a percepção da música é tão essencial para o sucesso de um profissional da área, mas que urgentemente, está pedindo por estímulo. Engraçado, embora o Brasil seja um Estado Laico, a educação religiosa ainda se sobrepõe à arte.

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