JORNALISMO CULTURAL

“Cada editor tem o seu olhar do mundo”

Entrevistas | 19/11/2015

Compartilhe:


ENTREVISTA COM IVAN FINOTTI

Editor do caderno de cultura Ilustrada, do jornal Folha de São Paulo

Saiba mais

 Em entrevista à Cajá, o editor do Ilustrada reafirma as transformações editoriais e visuais dos cadernos de cultura do País. Para ele, as duas perguntas que devem ser feitas são: “o que o leitor precisa saber e o que ele não pode deixar de ler?”

 

POR CLENON FERREIRA E NAYARA GUNGI

 

12170857_10207033643896336_2045392221_o

O ponteiro do relógio pendurado no meio da redação da Folha de São Paulo já apontava para às 10h da noite quando o jornalista Ivan Finotti começou a responder as perguntas enviadas naquela manhã. A tecnologia, mais uma vez, ajudou ambos: o entrevistador mandou os questionamentos por email que, mais tarde, foram respondidas através de áudios do whatsapp pelo entrevistado.

Editor do Ilustrada – caderno de cultura diário da Folha de São Paulo – há mais de um ano, Ivan já rodou por entre redações de revistas e de jornais, nas mais diferentes editorias e seções. Foi repórter da Superinteressante, quando trabalhava para a Editora Abril. Passou também pelo Notícias Populares, assumiu a editoria do caderno Folha Teen, da Revista São Paulo e da semanal Serafina.

Antes de abraçar a edição da Ilustrada, o jornalista formado na Escola de Comunicação e Artes (ECA) foi repórter e editor-adjunto do mesmo. O jornalismo cultural caiu-lhe feito uma armadura confeccionada no próprio corpo. Esporte nunca o interessou. Nem política, nem mercado. “Não queria ser crítico ou falar se gostava de algo. O que eu realmente queria era fazer reportagem, entrevistar gente, descobrir coisa errada, coisa nova”, admite.

Em entrevista à Revista Cajá, o editor reitera as transformações editoriais e visuais dos cadernos de cultura do País. Para ele, cada editor tem o seu olhar do mundo. “Saber colocar o que é mais importante, do que o leitor precisa saber, o que ele não pode deixar de ler. Isso é o mais importante.”

 “Vamos atrás disso ou vamos deixar de lado? É uma escolha.”

 

CAJÁ: Em tempos de crise no mercado editorial, qual seu olhar sobre os caminhos dos cadernos de cultura dos jornais impressos? O que mais mudou em relação ao caráter editorial do Ilustrada nos últimos tempos, desde o início do ano, quando começaram os passaralhos?

IVAN: Estamos perdendo gente. Eu perdi 1/3 da redação e, também, ao mesmo tempo, estamos perdendo espaço no papel. Os cadernos culturais do País estão ficando mais enxutos, e é nosso dever conseguir dar as coisas mais importantes pra quem achamos que é o nosso leitor. É muito difícil encontrar isso. Cada editor tem o seu olhar do mundo, de colocar o que é mais importante, do que o leitor precisa saber, o que ele não pode deixar de ler. Estamos num momento de retração, mas você tem que olhar isso também na ideia da internet, que é o lugar onde você consegue escrever mais, e você não tem problema com espaço e pode escrever várias matérias. O problema é que você não tem mais tanta gente pra escrever, então a solução disso é a edição: escolher bem o que você vai falar pra não gastar espaço, trabalho e tempo com bobagens e coisas que não interessam o seu leitor. Então é editar bem o material. Vamos atrás disso ou vamos deixar isso de lado? É uma escolha.

Ivan, como você avalia o jornalismo de cultura feito na internet? Os jornais estão conseguindo adaptar equipes e informações do impresso para o virtual? Como funciona no Ilustrada em relação a esse multimídia (tv, rádio, galeria de imagens, produções audiovisuais)?

Já tiveram várias fases. Nos anos 2000, por exemplo, havia uma redação da Ilustrada impressa e uma redação da Ilustrada online. Depois de um tempo, essas duas redações foram unificadas. Hoje não existe mais um resquício daquilo. A própria redação do impresso virou a redação que faz as duas coisas, o que tem uma consequência direta, que é o aumento de trabalho. Quem antes fazia só impresso, agora faz as duas coisas.  A adaptação da Folha está sendo feita dessa forma. Na verdade, temos uma ou duas pessoas que cuidam só da internet, porque há algumas coisas que são diferentes do nosso jornal – que são notícias mais facinhas, notícias de fofoca, ou coisa de filmes, boatos. Então nós temos uma ou duas pessoas que fazem essas notas rápidas, mas o grande volume do que a gente publica hoje na Ilustrada Online é refletido do jornalismo impresso, ou materiais que não couberam na edição impressa.

Jornalismo cultural, jornalismo ambiental, jornalismo político, econômico, social. Ainda é possível separar essas divisões numa equipe de redação?

Sim, totalmente. Ainda é feito assim nos jornais grandes; nas revistas grandes é feita uma divisão nas formas das editorias. Numa revista menor, como na Superinteressante, que eu trabalhei, já não era; cada jornalista acabava fazendo de todas as áreas. Mas a especialização do repórter ainda é importante, porque você faz fontes, faz o cara saber mais sobre o assunto, saber com quem falar. Isso é muito importante em um jornalismo mais profissional. Entendo que em sites menores isso já não exista.

Pra encerrar, gostaria que você pontuasse algumas das reportagens que já foram publicadas no Ilustrada que você gostou de fazer ou editar.

Ah, recentemente fizemos uma matéria que foi um furo sobre o Rock In Rio. O festival tinha pedido pro Ministério pra captar R$ 5 milhões pela lei Rouanet. Isso significa incentivo fiscal. Em contrapartida, eles iriam fazer o valor do ingresso ser R$ 380. Descobrimos esse edital e vimos que, na verdade, eles não estavam cumprindo isso porque estavam cobrando R$ 420 pelo preço do ingresso. Publicamos essa matéria e o Ministério da Cultura (MinC)  bloqueou e fizeram eles devolverem o que tinham captado. Devolveram os R$ 5 milhões porque tinham prometido uma coisa que não cumpriram. Existem outras matérias que eu gosto e que não são furo. Nos últimos tempos, estamos com um trabalho de trabalhar mais a parte visual da página. Por exemplo, fizemos uma reportagem sobre a meia-entrada que ia ser regulamentada no Congresso. Aí a capa da Ilustrada foi feita metade em branco e metade escrita. Era uma tradução daquela matéria no visual. Isso é o tipo de coisa que a gente tem feito bastante.

Comentários