ESPECIAL

As Ruas

Cajá com sal | 29/02/2016

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Metropolis, de Grosz George

Metropolis, de Grosz George

 

POR JÚNIOR BUENO

 

Já é noite oficialmente há mais de duas horas, quando desço do ônibus à Praça do Bandeirante, coração em forma de estátua no cruzamento das artérias mais importantes do Centro da cidade, as avenidas Goiás e Anhanguera. Com o horário de verão, passa das oito horas quando finalmente se pode dizer que é noite de fato, se considerarmos que noite é escuridão. O barulho e a desordem que davam o tom do dia já se foram, deram lugar ao silêncio em que trabalham, sete dias por semana os garotos de aluguel. O espaço é restrito: uma quadra, entre as ruas 2 e 3, a maioria nas esquinas do Bradesco e do Banco do Brasil. As transações financeiras do dia talvez nem sonhem que à noite se negociem naquelas marquises alguns bocados de prazer em troco de notas de 20 reais.

Os carros descem a Avenida Goiás, sentido Anhanguera, viram na Rua 3, sobem a Rua 7 e voltam pela Rua 2. De longe dá para sacar quem está a caça de um boy: os carros andam mais devagar, o motorista com o rosto virado para a direita, o olho fixo na calçada. Os rapazes sinalizam estar disponíveis encarando de volta, ou apalpando o pênis sobre a calça. Após encontrarem o que procuram, o destino geralmente é um dos motéis do Baixo-Centro, próximos à Rodoviária. Demora muito pra ir até os motéis da BR, na saída para São Paulo, há de se ter pressa. Um prédio em frangalhos na Rua do Lazer também costuma ser freqüentado. Quartos sem piso, lençóis sebosos e canos sem chuveiros, 10 reais por uma hora. Bom negócio para quem tem pressa.

Encontro meu guia da noite na Rua 3, na calçada do Grande Hotel. Já havíamos combinado o tour antes, por telefone. Henrique, nome inventado para o ofício, me diz que é cedo para começar os trabalhos. Me convida a ir até o Bate Papo, bar na mesma rua, frequentado majoritariamente pela população LGBT do Centro. Aceito, primeiro porque não tenho planos de andar por aí sem a ajuda dele e segundo, porque estou com muita fome. Já no bar, um autêntico “pé sujo,” ele me apresenta alguns de seus amigos e pede uma cerveja, enquanto eu escolho um petisco gorduroso de linguiça de porco. “Eu preciso dar uma relaxada antes de começar.” Então me começa a contar pormenores da noite.

Henrique tem 22 anos e desde os 18 faz programas. Sua aparência é bem comum, nada do que se imagina quando se pensa em um garoto de programa. Magro, sem músculos, estatura mediana, pele morena, cabelos pretos raspados bem baixinho. Não é feio. Mas não é lindo. Ele me explica que esses tipos – caras malhados, cabelos sedosos e olhos claros – não fazem ponto nas ruas. “Eles estão na internet, são outro padrão, oferecem outros serviços e cobram mais caro por serem bonitos. Pra ficar na Goiás não precisa (ser bonito), precisa ter um pinto e nem precisa ser muito grande, médio já dá pro gasto.” É que, segundo ele, quem procura pelos serviços dele e dos outros rapazes não são pessoas muito exigentes em relação a padrões de beleza.

Ele me conta que não faz disso sua profissão. “Aqui é só uma diversão, eu frequento os bares do Centro, as boates e de vez em quando passo aqui para transar e ganhar um dinheirinho. Mas tenho outro emprego, estudo. Aqui é só farra,” ele me diz. Pergunto se ele atende homens e mulheres, mas ele é rápido na resposta: “mulher, nem por 5000  reais. Não é que eu não queira, já até tentei, mas não dá, não sobe.” Uma travesti se aproxima da nossa mesa, ele me apresenta a ela, Carla, que começa a brincar comigo: “nossa, que delícia, vamos lá pra casa?”. Eu brinco de volta e a convido para se sentar conosco.

Tomamos outra cerveja e eu cometo a maior gafe da minha vida. Pergunto a Carla se ela me levaria onde as travestis fazem ponto no Centro. Ela, sorridente e polida me responde, sem alterar o tom da voz: “Elas eu não sei onde fazem programa, mas eu bato ponto às 7 da manhã na cozinha da minha patroa, faço almoço e jantar e volto pra casa, pra tomar uma cervejinha. Sexo, só de graça, meu bem.” Lívido e sem saber onde enfiar a cara, eu peço um monte de desculpas, mas acho que todas são insuficientes perto da bobagem que eu cometi. “Relaxa,” ela me diz, “É comum as pessoas confundirem.” Mas nada justifica minha atitude. Henrique me salva do desconforto pedindo a conta. E então vamos para o local de trabalho dele, na Avenida Goiás.

São uns dez ou 12 rapazes, dispostos nas calçadas usando roupas normais, calças jeans, camisetas, bermudas. Nenhum parece ter mais de 30, eu pareço um tio deles. Mas nenhum é menor de idade, pelo menos é o que dizem. Logo, eu não pareço ser tão velho assim perto deles. Alguns vêm todos os dias, porque precisam de dinheiro, para estudar, pagar as contas, comer. Outros, como o Henrique, usam o dinheiro para sair, comprar roupas melhores, então não aparecem sempre, só quando pinta vontade. Alguns precisam de dinheiro para comprar drogas, e esses casos são tristes, porque, segundo Henrique, eles sequer gostam de se relacionar com homens, mas o fazem pela facilidade de conseguir clientes. E há ainda, espalhados pelas ruas ao redor os que nem cobram, estão ali pelo prazer da pegação. E há espaço para todos eles, que parecem coabitar em harmonia.

A rotatividade é relativamente grande, ninguém espera muito pra atender um cliente. Carros passam sem parar. “A grande maioria é de homens casados,” me diz Henrique, “normalmente dizem que vão atrasar no trabalho e passam aqui, pra dar uma rapidinha.” Rapidinha mesmo: pelas regras dos rapazes, a transa dura até o cliente gozar. Não passa de uns 40 minutos. “Gozou, acabou, se o cliente quiser mais, tem que pagar por outro programa” diz o pragmático rapaz. O preço varia, mas a maioria faz uma completa (sexo oral e anal) por 60 reais. Alguns são versáteis (ativo e passivo), mas a maioria diz ser apenas ativo. Mas se o cliente pagar a mais, pode-se negociar. Um ponto que gera celeuma entre eles é quando ao bareback (sexo sem camisinha). Todos dizem que não fazem, jamais fariam. Mas todos conhecem um amigo que já fez, quando o cliente pagou mais pra transar sem proteção.

Perto das 11 da noite, um carro branco para e chama Henrique. Eles conversam um pouco e de repente apontam pra mim. Henrique vem até mim, com um sorriso no rosto.

– Ele ta perguntando se você não tá a fim de vir junto.

– Junto como, tipo uma suruba?

– É, ele gosta de fazer a três, e quer saber se você topa.

– Ele vai pagar o dobro?

– É, mas aí você me dá uma parte do seu, porque eu que tô arrumando o cliente, né?

Penso por três segundos. Até que seria uma história legal pra se contar pros netos: “o dia em que me prostituí para fazer uma reportagem.” Mas, por outro lado, a matéria não depende disso e – razão determinante – o cliente não me atrai nem um pouco. Resolvo que não, fica para a próxima. Henrique chama um colega para o trabalho e eu vou embora, levemente encabulado pela ideia de que alguém pagaria para transar comigo. Metade de mim está ofendida, mas a outra metade se sente lisonjeada.

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Este relato é parte do livro-reportagem A Torto e a Direito, trabalho de conclusão de curso do jornalista Júnior Bueno.

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