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Amor sem fronteiras: na garupa de uma Harley Davidson

Cajá com sal | 22/06/2016

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No dia em que eu voltei pra casa na garupa de uma Harley, eu entendi porque a estrada é mais bonita da perspectiva de uma moto

crédito: Renato Vital

crédito: Renato Vital

Por Fernanda Garcia

Até as ruas desalinhadas de Campinas tiveram seu fascínio quando eu cruzei as avenidas em cima de uma Harley Davidson. E mais: o piloto ostentava um colete pesado do Alcateia M.C., o que tornava tudo ainda mais autêntico. Descobri o charme do vento quente de Goiânia, a bizarra sensação de gostar de sentir os pés assando e aquele olhar torto de motoristas que vão ficando para trás na pista. É possível se sentir em Easy Rider mesmo sem uma chopper ou uma estrada sulista empoeirada.

Julio, ou Carrapicho, 47 anos, é o piloto em questão e também presidente do Alcateia, um dos moto clubes mais antigos de Goiânia, com 21 anos de história. Ele me ofereceu respeitosamente essa carona depois que o entrevistei na escola onde trabalha como professor de artes, na Vila Itamira. Quando cheguei lá, encontrei aquela moto colossal dividindo o pátio com várias crianças. Mais tarde, surgia na paisagem um cara com uma bandana preta na cabeça empenhado em acalmar os ânimos do 5º ano sem, incrivelmente, perder a calma.

Goiânia abriga uma porrada de moto clubes. São mais de 80, de acordo com Júlio, mas esse número também inclui “grupos menos sérios”. Grande parte dos clubes mais antigos daqui nasceu na década de 1990, e a maioria continua na ativa até hoje. Cada um segue uma lógica específica de regras internas, algumas mais rígidas que outras e com um princípio de hierarquização herdado pelos moto clubes de origem militar. Em todos, no entanto, reside a paixão em comum: moto e estrada.

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crédito: Renato Vital

Quando conversei com Júlio, o presidente do Alcateia, ele, didaticamente, fez questão de me explicar a história do clube. O Alcateia foi criado por, hoje, um ex-integrante e sua esposa, com a ideia de montar um grupo que não apenas reunisse apaixonados por motos mas que também promovesse ações filantrópicas.

“O que queremos desenvolver no clube é essa preocupação em fazer movimentos sociais. Todo ano, a gente faz um evento de doação de alimentos no nosso aniversário e estamos também com uma campanha de doação de brinquedos para o natal”, pontuou.

As regras do jogo

Para fazer parte do moto clube, é preciso receber o convite de um integrante e, depois disso, o “camisetinha”, ou seja, o aspirante a membro, passa por um período de experiência dentro do clube. Mulheres não são permitidas. Essa é, inclusive, uma questão quase sempre desconversada. Pergunto o porquê e Júlio tenta me convencer de que as mulheres ocupam o lugar de companheiras dentro do Alcateia.

Mantendo o tom suave e pedagógico, Julio explica que a característica básica do Alcateia é manter uma linha old school, o que significa abandonar aquele pensamento militarista, com hierarquizações e regras muito inflexíveis, e abraçar o espírito de camaradagem.

“O lobo anda em grupos e grupo de lobos é alcateia. Ele é um animal que tá sempre cuidando um do outro, igual a gente. É irmandade, família, e tem essa visão de crescer. Aqui um serve o outro e todos fazem pelo clube”, finalizou.

Crédito: Renato Vital

Crédito: Renato Vital

 

Além das fronteiras

Goiânia também é berço de filiais de muitos clubes conhecidos nacional e mundialmente. O Abutre’s é um moto clube fundado em 1989, em São Paulo, e conta com cerca de oito mil membros no total, o que garante o título de maior da América Latina e um dos maiores do mundo. 

A regional goiana tem 16 anos de história e foi criada, inclusive, por dois ex-membros do Alcateia. Quem passar pela Vila Rosa e avistar um único lote rodeado por muros pretos com um “1%” expressivo na frente, saiba que você acabou de ver a sede do Abutre’s. Lá, além das reuniões semanais do clube, funciona um bar com cerveja barata e é local também de vários eventos promovidos pelo grupo.

O atual diretor dessa facção – expressão bastante usada entre os membros –, o Aladin, rodeado por mais quatro integrantes, contou que para entrar no Abutre’s é preciso ter uma moto, amor pela estrada e disposição. Quanto à parte burocrática do negócio, o interessado tem que ser homem (no sentido amplo e restrito da palavra), receber um convite e ser apadrinhado por um membro.

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Aladin, o diretor da regional do Abutre’s. crédito: Renato Vital

Zumbi, Buda, Pitaluga e Pesadelo. Esses são alguns dos integrantes que rodeavam o diretor Aladin e, apesar do visual e apelidos meio suspeitos, eles mostraram que são focados em fazer o bem. Essa galera já conquistou até mesmo as casinhas mais tradicionais do interior por onde passam, com direito à comida e portas sempre abertas.

O clube também se dedica a ações beneficentes, realizando festas de arrecadação de alimentos e doações. “As ações sociais, quando não dá pra arrecadar uma grande quantidade, a gente apela pra dentro do próprio clube, vê quem pode oferecer alguma coisa, algo melhor. A gente tem uma aparência meio radical, tatuado assim, mas a cara é de lobo e o coração de cordeiro”, explicou Aladin.

O diretor, sempre sorrindo e muito bem-humorado, como uma espécie de subterfúgio para aquela careca mal encarada, me fala com uma paixão sincera sobre a estrada. Respirar aquele arzão é uma das melhores sensações que ele já sentiu, fora que sempre é uma aventura. Pra comprovar sua fala, ele repetiu um ditado do clube: “moto de Abutre não quebra, para pra fazer história”.

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crédito: Renato Vital

Pergunto sobre o significado do “1%” e Buda logo se prontifica a responder categoricamente, explicando que o 1% representa aquela quantidade inestimável de pessoas que vivem inteiramente pelo clube. “É a pessoa que respira o clube, que vive realmente pelo clube”, concluiu.

Cepal

O Cepal do Setor Sul é oferece outras coisas legais além do salgado da tia às quatro da manhã. Todas as quintas-feiras, a partir das sete da noite, o espaço fica lotado de motos que você só vê em filme, senhores ostentando grandes cabelos brancos, crianças desfilando com coletes de motoclubes e mulheres resistindo gloriosamente nesse ambiente dominado por homens.

De vez em quando, rola até uma banda tocando ao vivo, mas pode acontecer também de as luzes do local estarem estragadas por causa da chuva. E o pessoal vai mesmo assim se encontrar, no escuro e ao som apenas do ronco grave daquelas motos gigantescas.

1. Paixão sessentista

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crédito: Renato Vital

Gilmar Nascimento, 56 anos, é integrante do motogrupo Paz e Liberdade. A paixão por moto já era latente em seu espírito sessentista, mas ele só se jogou na estrada recentemente, percorrendo até nove mil quilômetros em uma só viagem.

2. A lojinha do Leo Buzina

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crédito: Renato Vital

Ex-Anjos da Liberdade, clube goiano com quase 20 anos de história, Leonardo, mais conhecido como Leo Buzina, 41 anos, comanda a única barraca do Cepal que não está fritando alguma coisa naquela quinta-feira. Desde 2003, ele vende durante os encontros vários acessórios para motos, quantidades inimagináveis de chaveiros caveirinha e ostensivas algemas de pluma. Leo Buzina, apesar de não integrar nenhum motoclube, continua pegando estrada no maior estilo lone wolf.

3. Tião Carreiro M.C.

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crédito: Renato Vital

Wander Rosa, ou Cigano, em cima de sua moto rumo ao Acre encontra outro cara, também em cima de uma moto, fazendo o mesmo percurso. Placa Guarulhos. Conta para o seu recém companheiro que queria mesmo era costurar a foto do Tião Carreiro na parte de trás do colete. O colega explica para Cigano que não ia pegar muito bem, já que essa galera aficionada por moto só quer saber de rock. Aqui, amigo, a patch da Estradeiros pra você não ter que sair por aí com um Tião Carreiro grudado nas costas. Quatro anos depois, o filhinho de Cigano também desfila com seu colete da Estradeiros.

4. Clube abençoado

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crédito: Renato Vital

Há cinco meses, Marcos Franco, 56 anos, resolveu reunir os brothers da igreja que frequenta para formar o motoclube Tribo de Judá. Ele, que é presidente do clube, explicou que a entrada de integrantes não é restrita a membros da igreja. E você achando que o meio cristão tem que ser careta.

5. Fora da Garupa

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crédito: Renato Vital

Luciene é primeira-dama no motoclube Redentores de Cristo, mas não se contenta apenas com a garupa. No clube, é permitida a entrada de mulheres desde que elas tenham moto e amor pela estrada. Ela, que pilota desde os 16 anos, dispensa a garupa e participa intensamente das viagens, mesmo debaixo de uma chuva fria em direção a São Chico, cidade na pontinha do sul do país.

6. Fera Radical

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crédito: Renato Vital

1988. Vanessa Cristina ainda era criança e ficava fascinada ao ver Malu Mader toda trabalhada no preto e na motoca em Fera Radical. Quando terminou o Ensino Médio, para o desespero de sua mãe, Vanessa pegou o dinheiro do cursinho e comprou sua primeira moto. Desde então, a paixão por esse estilo de vida só cresceu e hoje ela faz parte do Aliados Motoclube.

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