CINEMA

A memória de um povo sob o olhar sensível de dois irmãos

Entrevistas | 14/03/2016

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ENTREVISTA COM HENRIQUE E MARCELA BORELA

São cineastas e assinam a direção do filme Taego Ãwa

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A poucas semanas de darem início à trajetória internacional do longa-metragem Taego Ãwa, os diretores concederam uma entrevista à Revista Cajá para falar de motivações, escolhas e influências que permearam a criação do documentário

 

POR MARIA CLARA SENRA

Créditos: Carlos Cipriano

Créditos: Carlos Cipriano

É na próxima terça-feira, dia 22 de março, que o cineasta goiano Henrique Borela apresenta em Paris seu longa-metragem Taego Ãwa em um dos festivais de documentários mais importantes do mundo – o Cinéma du Réel. Dirigido ao lado da irmã e companheira de profissão, Marcela Borela, o filme aborda a luta dos índios – mais conhecidos como avá-canoeiros do Araguaia – pela demarcação de seu território ao mesmo tempo em que tenta reconstruir o passado e a identidade do grupo.

Marcela não vai acompanhar o irmão na ida à capital francesa, mas por um bom motivo: estará representando o longa na quarta edição itinerante da Mostra de Cinema de Tiradentes, que acontece em São Paulo, de 17 a 23 de março – e reexibe títulos que tiveram destaque no evento original, realizado em Minas Gerais.

O pontapé inicial da produção foi curioso. A dupla de diretores encontrou, nos arquivos da antiga Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Goiás (UFG), cinco fitas VHS contendo registros do povo Ãwa. “Não tínhamos pretensão de fazer um filme inicialmente, mas essas imagens não deixaram de nos habitar”, conta Henrique. Anos mais tarde, munidos de outros registros fotográficos e audiovisuais, buscaram os índios para mostrar o material e ver se era possível iniciar um projeto. “Eles ficaram bem desconfiados no começo, e com toda a razão”, comenta o realizador.

O trabalho, rodado na Ilha do Bananal, no Tocantins, tem como base a história do líder Tutawa Ãwa e sua família e critica o processo predatório que quase levou ao extermínio da tribo. A poucas semanas de darem início à trajetória internacional do filme, os irmãos Borela concederam uma entrevista à Revista Cajá para falar de motivações, escolhas e influências que permearam a criação do documentário.

“Essas permanências de outros em nós, dos cinemas que amamos, como nomear? É meio difícil pra mim. Eu sou tudo que me conecta a minha experiência”

Revista Cajá – Taego Ãwa foi o primeiro filme de Goiás a participar da Mostra Aurora – principal mostra dentro da programação de Tiradentes – e segue para um dos mais renomados festivais de documentários do mundo. Qual foi o significado dessa estreia em Minas Gerais e de que forma gostariam que o público francês recebesse esse longa-metragem que tem um tema específico?

Marcela Borela – A exibição em Tiradentes, na Aurora, permitiu que o nosso primeiro longa fosse à público dentro de um recorte estético e político preciso que já há algum tempo tem colocado questões importantes para a recepção de filmes independentes no Brasil. Faz muita diferença na primeira exibição de um filme a proximidade com outros. Acho sensível o modo como as obras foram programadas. E significou bastante para o Taego Ãwa estar perto de filmes como Filme de Aborto, Jovens Infelizes ou Um Homem Que Grita Não É Um Urso Que Dança, Índios Zoró: Antes, Agora e Depois?, Banco Imobiliário. Parece que se abriu um horizonte de debate, de conversas, de saliências entre os filmes.

Considerando que a Mostra Aurora desde 2008, quando foi criada, não exibiu antes de Taego Ãwa nenhum outro título goiano, a gente vê que não foram feitos muitos filmes de longa-metragem no estado nesse período. Aliás, é bem longínquo o ano de 1979, momento em que Ventos de Lisarda foi o último filme goiano a entrar em cartaz em circuito comercial de salas de cinema. Hoje, de forma diferente, existe um aumento na produção de longas em Goiás. Entre títulos em finalização e em produção eu conheço uns dez. Acho que isso tem muito a ver com a regionalização da produção, com a descentralização do fomento à cultura e ao audiovisual no Brasil, com condições de possibilidade para realizar projetos mais audaciosos.

É relevante também que um festival que discute documentário desde 1978 em um dos centros de arte mais importantes do mundo (as exibições principais do Cinéma du Réel acontecem no Centro Georges Pompidou) vá fazer a pré-estreia internacional do Taego Ãwa. É goiano, né? E não é específico, é universal. É o estupro do cerrado, da América, que a França sabe bem do que se trata, que o mundo inteiro sabe bem do que se trata.

RC – Goiás tem uma certa tradição no cinema antropológico, principalmente por conta do cineasta Jesco von Puttkamer, que produziu documentários sobre os índios do Xingu para a BBC de Londres e deixou um enorme acervo de fotografias e filmes. Vocês tiveram contato com esse acervo? Quais são as influências de vocês dentro do estado?

MB – Não temos influência desse cinema, embora a gente conheça a obra do Jesco. O debate sobre o documentário e o filme antropológico sempre nos pareceu bastante problemático em Goiás, independente do trabalho desse cineasta. E embora fizesse lindas imagens, Jesco tinha uma abordagem que padecia de engajamento e enfrentamento. Ele é um cara que acompanhou de perto os índios de Goiás serem dizimados, desde os anos 40, assim como fizeram outros indigenistas, antropólogos, sertanistas, jornalistas, fotógrafos, documentaristas. Muitos deles trabalharam para grandes corporações, avalizaram o extermínio. Eu me pergunto: como conseguiram? A resposta não é tão distante: a neurose, a lamentação do fim que esconde o cinismo de quem não vê o índio com direitos iguais. Então, o que podemos dizer é que houve em Goiás um indigenismo empresarial, predatório, com o qual não temos absolutamente nenhuma relação. Um indigenismo e um documentarismo  que nunca ficou ao lado dos índios e que nunca se arriscou, a não ser para “registrar”. Esse é o contexto do Jesco. É também um olhar impregnado, insustentável. Esse olhar colocou o índio de Goiás no passado, quando estava no presente. É muita morte engolida no silêncio. Não passarão.

Mas tem cinema que nos influencia em Goiás, como Lourival Belém Júnior (alguns dos filmes podem ser vistos aqui). O Lourival vem do Cineclube Antônio das Mortes, uma outra tradição, que inclusive não acho que seja o lance do Taego Ãwa também. Cinema que explora as fissuras do sentido, a loucura, abraça o experimental numa mise-en-scène direta, cortante, no encontro com o outro, de uma descoberta. Recordações de um Presídio de Meninos, Dedo de Deus e Dois Nove Cinco Ponto Cinco são clássicos.

RC – O primeiro contato de vocês com os Ãwa foi através das imagens de 5 fitas VHS. A partir daí, como surgiu a decisão de que um longa-metragem poderia ser feito? Qual foi a sensação quando assistiram ao material pela primeira vez?

Henrique Borela – Essas imagens povoavam nosso imaginário antes mesmo de assistirmos a elas. Antes de vê-las sabíamos da sua existência e as perseguimos, intencionalmente, como fizemos com as outras imagens que buscamos depois. Ao assisti-las não compreendíamos quase nada, a não ser os elementos próximos à realidade, corpos e espaços, mas era justamente a incompreensão que nos motivava a querer ver mais. Não tínhamos pretensão de fazer um filme inicialmente,  mas essas imagens não deixaram de nos habitar. Anos depois começamos a trabalhar com cinema e pensamos na possibilidade de fazer um curta com essas primeiras imagens em VHS. Não tivemos autorização para realizar o filme sem o direito de imagem dos índios. Foi aí que decidimos levar o material para eles na Ilha do Bananal e pensar um filme em conjunto. Isso foi em 2011, se eu não me engano. De lá para cá são quase 5 anos.

RC – Como foi o diálogo com os Ãwa? Que tipo de barreira encontraram, considerando que há partes do filme em que eles falam, inclusive, em outro idioma?

HB – Imagina que você está na sua casa com sua família e chega um pessoal que você não conhece, dizendo que quer usar umas imagens antigas e fazer um filme sobre você e sua família. Você ia no mínimo achar estranho, né? Ainda mais se você e sua família estivessem passando por um processo de luta pelas suas terras tradicionais que atravessava a fase de litígio, à espera da represália dos latifundiários.

Bom, quando fomos aos Ãwa pela primeira vez levar as imagens não foi nada harmônico. Eles ficaram bem desconfiados no começo, e com toda a razão. Os Ãwa estão cansados de pessoas que vão lá apenas para explorar a imagem deles. Só um ano depois, após muitas conversas, que toparam fazer o filme, um filme onde pudessem participar da feitura e dividir as escolhas. Eles temiam em primeiro momento que as imagens pudessem ser usadas contra eles. Mas depois concordaram que podia ser uma boa maneira de registrar a memória do avô (o líder Tutawa) e se somar ao relatório de demarcação na luta por Taego Ãwa (nome da terra tradicional do povo Ãwa).

A parte de tradução foi bem difícil também e foi feita pelo Davi – Waikõgo Ãwa – em dois momentos. Um primeiro em que ele veio a Goiânia, onde nós traduzimos por alto todo o material bruto. E um segundo momento onde eu fui para a aldeia traduzir especificamente aquilo que nós selecionamos para o filme. A dificuldade de se traduzir uma outra língua para a sua língua nativa, ainda mais quando você não fala a outra língua e depende de um outro falante, nesse caso menos experiente na língua, é que a tradução é sempre uma traição. O Davi perseguia o sentido na fala do avô, assim como eu perseguia o sentido do que o Davi me falava. Você pode entender a tradução do filme como o que nós entendemos sobre o que Davi disse a partir do que avô dele falou. É mais ou menos assim.

RC – A memória e a imagem são sempre produzidas a partir de um ponto de vista. No filme, essa memória se apresenta em diversas camadas revelando o passado familiar dessa tribo e, ao mesmo tempo, do nosso país. A imagem, nesse sentido, legitima a versão oral, “marginal”, contada pelos índios e se contrapõe à versão oficial, inclusive mostrando sua face mais terrível e nociva. De que forma vocês enxergam o cinema como forma de retratar a memória?

HB – A memória como fenômeno humano não é apenas o lugar de lembranças do passado, como ele se apresentou, mas é também, e sobretudo, o lugar da fabulação individual e coletiva desses acontecimentos interpretados por um olhar, uma subjetividade. O cinema, assim como a realidade, e ainda mais que a realidade eu acho, é o lugar da fabulação da memória e do passado/presente. Quando eu falo fabulação ou invenção não estou querendo dizer mentir ou enganar.  Quero dizer que quando você se lembra de algo que aconteceu, você se lembra a partir de vários pontos de vista, que na verdade ajudaram a construir o seu ponto de vista sobre aquela história. E que não é a realidade em si, mas ao mesmo tempo é, contraditória e dialética, porque a realidade não é como a ciência positivista a construiu. É muito comum conversar com pessoas que acham que a ditadura militar não foi tão violenta assim e que isso é invenção dos comunistas. Isso quer dizer que a memória é seletiva, capaz de construir um outro ponto vista sobre a história de opressão nesse período no Brasil, um ponto de vista neutro, apaziguado.

RC – A história do cinema é inegavelmente contada a partir do ponto de vista do branco. Nesse filme, o povo Ãwa, que foi exaustivamente fotografado e filmado no passado, teve a chance de mostrar um pouco de sua memória e de suas lutas mas, ainda assim, o registro foi feito por vocês, diretores brancos e que vivem na cidade grande. Como solucionar uma questão tão complexa?

HB – Não pretendemos solucionar essa ou nenhuma outra questão nos nossos filmes, a não ser as questões que nos motivam como humanos e seres sociais engajados politicamente na transformação da nossa realidade. Essa questão – posso eu conhecer o outro? – que é tão cara e ao mesmo tempo fundante da epistemologia da Antropologia, só pode avançar – e tem avançado significativamente – a partir de uma descolonização do saber. No campo do cinema e do audiovisual eu destaco o projeto Vídeo nas Aldeias, coordenado pelo Vincent Carelli, que promove a formação audiovisual em aldeias indígenas no Brasil. Essas e outras ações tem o poder de empoderar as populações indígenas e a classe trabalhadora em geral a produzir sua própria representação, ajudando a combater assim a construção da representação romântica, selvagem, naturalizante e exótica que a classe dominante faz sobre essas outras populações.

RC – Um dos netos de Tutawa parece muito empolgado em mostrar as tradições de sua família, como a pintura corporal, as músicas etc. Vocês sentiram que havia uma sede de ser escutado? De que forma isso pode ter gerado uma certa atuação para a câmera?

HB – Desde Nanook, o primeiro do documentário da história (1926), e antes dele nos registros cinematográficos da expedição ao Estreito de Torres pelo antropólogo Alfred Radon, há uma invenção/fabricação da cultura a partir do cinema. Nesse sentido, o cinema abre a possibilidade de reconstruir esse passado/presente que já não é mais visível, porém ainda está presente no imaginário desses personagens. No filme da mesma forma. Os índios não falam em Ãwa no seu cotidiano, nem praticam seus rituais com frequência, por uma série de questões históricas. O longa abre essa possibilidade de fabricação da cultura, onde há o desejo de ser representado de outra forma, uma forma que se aproxime daquilo que imaginamos para nós mesmos.

RC – A Mostra de Tiradentes este ano homenageou o cineasta Andrea Tonacci e Taego Ãwa, na ocasião, foi visto por muitos críticos como uma espécie de eco do filme Serra da Desordem. O que vocês acham da comparação?

MB – Essa comparação nos surpreende e ao mesmo tempo nos acolhe. Pra nós, na realidade, nem há comparação. O cinema de Andrea já é, por si, incomparável. Essas permanências de outros em nós, dos cinemas que amamos, como nomear? É meio difícil pra mim. Eu sou tudo que me conecta a minha experiência.

RC – Qual a situação dos Ãwa hoje em relação à demarcação de sua terra tradicional? De alguma forma o filme contribuiu para ajudá-los nessa busca?

HB – Um filme sozinho não é capaz de transformar uma realidade. Quem transforma a realidade são pessoas e pessoas assistem aos filmes. Capaz de transformar a realidade desses indígenas foi o relatório escrito pela antropóloga Patrícia Mendonça e a bióloga Luciana Ferraz que busca demarcar a terra indígena Taego Ãwa, hoje uma realidade eminente. Atualmente os índios aguardam a determinação do Ministério da Justiça.

crédito: Carlos Cipriano

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crédito: Carlos Cipriano

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